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Ciência & tecnologia

«É impressionante o que os cientistas portugueses conseguem projectar no plano internacional»

Entrevista a Pedro Antas, investigador pós-doutoral no CEDOC – Chronic Diseases NOVA

21 Agosto 2019

Entrevista a Pedro Antas, investigador pós-doutoral no CEDOC – Chronic Diseases NOVA.

 

Pode descrever de forma sucinta (para nós, leigos) o que faz profissionalmente?

 

Estudo mecanismos moleculares de doença. Quer isto dizer que tento compreender quais são as circunstâncias que levam as nossas células a deixar de funcionar normalmente. Por exemplo, a equipa que integro está a tentar perceber como é que as células se libertam do “lixo” que produzem e porque razão vão perdendo esta capacidade com o envelhecimento. A hipótese é que, eventualmente, é a perda desta capacidade de limpeza que leva à doença da célula.

 

Agora pedimos-lhe que tente contagiar-nos: o que há de particularmente entusiasmante na sua área de trabalho?

 

Primeiro, creio que o que há de mais entusiasmante em ser cientista é que grande parte do nosso dia é passado a pensar. A pensar em problemas ainda sem solução. É isso o que a sociedade espera de nós e, por isso, este trabalho traz consigo também uma grande responsabilidade.

No caso concreto da minha área de investigação, este desafio é enorme. O bom funcionamento das células resulta de uma complexa rede de interacções entre milhares de moléculas e identificar o culpado, ou os culpados, não é tarefa fácil. É um estimulante quebra-cabeças que me desafia diariamente. Ao estudar doenças, há a motivação extra de saber que o conhecimento diário que desenvolvemos contribuirá, mais cedo ou mais tarde, para melhorar o bem-estar da sociedade.

 

 

Por que motivos decidiu fazer períodos de investigação no estrangeiro e o que encontrou de inesperado nessa realidade académica?

 

Ter experiências internacionais é fundamental na carreira de um cientista. Não tenho dúvidas de que o progresso científico se tem feito a grande velocidade porque a ciência é feita por uma comunidade aberta, colaborativa e global. Este progresso resulta de um esforço conjunto de cientistas que, não partilhando necessariamente a mesma bancada, perseguem ideias comuns com determinação e abertura. Quando surgiu a oportunidade de trabalhar no maior instituto de investigação biomédica da Europa, o Francis Crick Institute em Londres, rodeado de cientistas cujos nomes são conhecidos em todo o mundo, não tive dúvidas sobre a minha ida. A cidade de Londres permitiu-me trabalhar com pessoas praticamente de todas as nacionalidades e religiões, algo que nunca teria sido possível, àquela escala, em institutos portugueses. Foi absolutamente transformador. Também já estive alguns períodos em Barcelona e nos EUA e não perco a oportunidade de fazer pequenas estadias noutros laboratórios, seja para aprender técnicas específicas ou simplesmente para trocar ideias. Cada vez que passo por uma experiência fora do país, mesmo que curta, sei que me torno não só melhor cientista, mas também melhor pessoa.

 

Que apreciação faz do panorama científico português, tanto na sua área como de uma forma mais geral?

 

São as experiências fora de Portugal que me levam a confirmar que é absolutamente impressionante o que os cientistas portugueses conseguem projectar no plano internacional. É quase inacreditável que tantos cientistas portugueses a trabalhar em Portugal se consigam afirmar internacionalmente com as limitações de recursos que têm. Portugal ainda não tem um plano estratégico para Ciência. Há um claro subdesenvolvimento das instituições que tutelam esta área.

À falta de recursos, acresce o problema de Portugal ser dos poucos países europeus sem um plano de diplomacia científica. Por exemplo, as redes que os cientistas portugueses criam são unicamente fruto de um trabalho casual, individual e árduo. Sem uma estratégia robusta, será muito difícil a Portugal afirmar-se internacionalmente e atrair cientistas internacionais em número suficiente para um ambiente científico próspero. Existe uma resolução do Conselho de Ministros em 2016 a anunciar a ideia de aposta na diplomacia científica. Contudo, o que foi concretizado até agora é insuficiente e muito distante do modelo de sucesso de outros países europeus.

 

Que ferramentas do GPS lhe parecem particularmente interessantes, e porquê?

 

O GPS foi e continua a ser fundamental para que se saibam quantos são, e onde estão, os cientistas portugueses pelo mundo. Mas é também uma plataforma fundamental para criar redes entre cientistas, quer sejam ou não da mesma área de investigação. E, não menos importante, uma plataforma que promove a abertura ao mundo que tanto deve caracterizar a vida em ciência.

 

Consulte o perfil de Pedro Antas no GPS-Global Portuguese Scientists.

GPS é um projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos com a agência Ciência Viva e a Universidade de Aveiro.

 

GPS/Fundação Francisco Manuel dos Santos

Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva