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Testemunhos de vida com Artur Cistovinho "Airosa"

Lides até à Eternidade

Publicado originalmente na edição impressa do jornal Linhas de Elvas de 25 de Julho de 2019

Arlete Calais

08 Agosto 2019

Debaixo do calor impiedoso da meia tarde de Verão, Artur Cistovinho retira o boné que lhe protege a cabeça, em sinal de respeito, e entra no cemitério de Elvas. De passo firme, embora a acusar alguma dificuldade própria dos 82 anos, guia-nos o caminho.

O silêncio é o som dominante, apenas quebrado pelo ressoar das pisadas no chão e pela conversa circunspecta, que vai surgindo. O local é de respeito e encerra o desconforto inerente ao simbolismo. Contactar com a morte não aporta conforto. Olhar para o próprio túmulo é algo que não está reservado a todos e escapa ao radar da maioria de nós. Após escassos minutos de caminhada, Artur estanca em frente a uma sepultura revestida a pedra negra e informa: "é aqui". A campa tem um crucifixo cravado na cabeceira e inscrita a prosa memorial: "À MEMÓRIA DE ARTUR CIPRIANO FREIXO CRISTOVINHO N. 10.01.1937. AIROSA. P.A.S.A. Um touro em pose de investida completa o conjunto. Artur, ou melhor, Airosa, como é popularmente conhecido e como gosta de ser apelidado, não deixou a sua vontade por mãos alheias, testamentada por escrito ou confiada verbalmente a alguém, e mandou construir o próprio túmulo em vida. De olhos postos na feição da sua última morada interpreta-se-lhe uma comovente atenção, que em nada abala a coragem da decisão e do acto. Airosa providenciou levar consigo desta vida, a paixão que o moveu por cá: os touros e a festa brava. E o que está a faltar no local que um dia o irá acolher é somente a data do falecimento e a lápide com a fotografia trajado a rigor, "vestido de prata", ou seja, envergando as vestes de toureiro, que também já providenciou. De resto, está tudo tratado, inclusive o pagamento do funeral. E porquê esta decisão que muitos classificarão de mórbida? Embora não esteja enraizado na nossa cultura, o facto é que um serviço pré-organizado reduz os problemas para os sobreviventes durante o tempo emocional que sucede o falecimento de um familiar, incluindo a parte económica, mas acima de tudo, assegura que os desejos do falecido sejam realizados. E é essencialmente isso que pretende o homem que diz ter toureado em inúmeras praças e enfrentado a morte que acena nas pontas do touro.

A paixão pela tauromaquia invadiu Airosa quase desde que tem consciência de si próprio. Aos 82 anos, dono de uma articulação verbal cerrada, dispara numa apresentação encadeada de memórias, difícil de acompanhar e descodificar.

Airosa

Com uma lucidez vibrante, e um empolgamento proporcional à paixão pelos touros, debita caoticamente nomes, histórias, cataloga toureiros de cá e de lá da fronteira, atribui-lhes parâmetros de valorização… "o mais sábio é Enrique Ponce; Morante de la Puebla o melhor toureiro de capote; há muitos toureiros bons em Espanha; eu não gostava de tourear touros com as pontas cortadas; toureei 4 corridas em Portalegre como prata, vestido de prata…"Não há dúvida de que além de fervoroso aficionado, é um verdadeiro entendido na arte de tourear. Conhece as técnicas e é um repositório de conhecimento tauromáquico. Fala com propriedade, empolga-se, levanta-se, simula e demonstra poses: "o touro quer sempre ganhar terreno a um gajo. O Paquirri levou uma cornada que eu não levava. Quando é para fazer uma circular, já é com a perna contrária, mas tem que ser um touro encastado. Um touro quanto mais espaço a gente lhe dá, mais ele cresce…".

Airosa conta que começou a tourear aos 10 anos. "Comecei com um casaquinho, a brincar e a pensar no toureio. E a tauromaquia, a sangria, entrou dentro de mim. Havia uma ganadaria no monte de Alcobaça, de que era proprietário Pompeu Caldeira. Eu ia lá e toureava à noite". O toureio furtivo está-lhe no curriculum. Relata outros episódios e diz que foi apanhado duas vezes, em Fontalva. "Não havia escolas, e toureávamos assim. À noite. Eu não tinha medo. Nasci para a morte. Não pensei em cá ficar". Também dá a perceber, na sua linguagem orgânica, entre meneios e gestos tauromáquicos, que participou em faenas camperas, ou seja, que fez tentas: "toureei para o Bastinhas. Ia lá a Fangueiros. Uma vez toureei duas vezes as vacas. À segunda já estava a levar porrada. Um homem só deve tourear uma vez um animal". Arvora-se de ter pisado arenas ao lado de nomes ilustres, e diz ter participado na última corrida da Antiga Praça de Elvas. "A minha história é muito grande", afirma, orgulhoso e cioso de um vasto memorial, que inclui nomes de toureiros, as respectivas datas de nascimento e efemérides de colhidas fatais.

O registo escrito do fascínio pela tauromaquia assoma por debaixo das mangas da camisa que trás vestida. Junto ao pulso tem tatuado o nome artístico. Mais acima, o retrato do toureiro João Belmonte, "que nasceu em 1892". No braço esquerdo a cara de um touro e o respectivo nome "Bailaor, que matou Joselito El Gallo".

Airosa

Airosa vive às ordens da natureza que lhe é intrínseca: um enorme fascínio pelo mundo dos touros e pelas arenas. Fervilha de memórias, porventura exacerba e ficciona um pouco a sua vivência tauromáquica, mas o que é certo é que quando fala, não se lhe ouve mudar as agulhas para outro assunto. Por isso não estranhará a ninguém que tenha decidido não fazer a separação entre o mundo dos vivos e o dos mortos e que tenha providenciado levar para a última morada os símbolos da tauromaquia. "Já estou velho", afirma. "A paixão pelo toureio é muito grande. Não consegue imaginar. Quem a tem, morre com ela. Não se vê mais nada, a não ser o touro. Airosa acredita que na hora "h", o último pensamento que vai ter vai ser o touro. "Penso que sim. Vai ser de certeza! Eu sei que era meu amigo, e eu era amigo dele".