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“Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!”

Utilizarei este artigo para falar de três atividades humanas, com grande importância no nosso pais, que afetam o Nosso Mar.

16 Julho 2018

“Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal!” Assim escreveu Fernando Pessoa, numa das suas obras mais aclamadas, “Mensagem”. Quando o poeta escreveu estas estrofes sabia a importância que o Mar, mais concretamente o Oceano Atlântico, tivera para Portugal. Contudo, parece que essa noção se perdera no tempo.
Utilizarei este artigo para falar de três atividades humanas, com grande importância no nosso pais, que afetam o Nosso Mar.
Pescas: Durante anos fomos incrivelmente dependentes do Mar para alimentação. Crustáceos (cranguejos, camarões e percebes), polvo, ameijoa, sardinhas, carapaus, douradas, peixe-espada, atum e outras centenas de iguarias marinhas que completam e dão sabor á nossa alimentação podem estar em risco por causa da pesca. Como assim? Isso não faz sentido? Toda a vida pescámos estes animais! Verdade, contudo há 100 anos eramos 5 milhões e hoje somos 11 milhões! Para além do mais, o nível de vida subiu, as pessoas têm mais cuidado com a sua alimentação e exigem mais variedade e qualidade. O Oceano pura e simplesmente não consegue aguentar tamanha procura. Qual é então a solução? Deixar de comer peixe? Claro que não, seria uma hipocrisia da minha parte desencorajar a dieta mediterrânica ou encorajar uma alimentação mais vegetariana. A solução é aquacultura. O quê? Peixes de aquário? Sim, porque não? Toda a carne que comemos regularmente provém de animais criados em cativeiro, muito poucos são os que de nós comem carne de caça semanalmente, até porque os que o fizerem não estão a respeitar o período de defeso. A pecuária aliviou a pressão que as populações selvagens de coelhos, perdizes, pombos, javalis e veados sofriam, hoje não precisamos de caçar estes animais para termos carne, então porque é que continuamos a exigir que o nosso peixe tenha nadado nos mares do Atlântico? Qual é a diferença de comermos uma bifana de um porco de pecuária e uma sardinhada com sardinhas de aquacultura?
Plástico: Este é o problema mais falado nos últimos tempos e apelidado pela ONU de o maior desfio ambiental deste século. No dia 5 de Junho a Gerente de Campanhas da ONU Meio Ambiente, Fernanda Dalto informou que por ano são estimados o despejo de 8-13 milhões de toneladas de plástico nos oceanos. O governo português já veio afirmar que serão implementadas taxas adicionais ou incentivos que ajudem a redução do plástico em Portugal, mas só para 2021. Honestamente questiono o porquê de serem precisos 3 anos para implementar incentivos à redução do uso de plástico e apenas 3 semanas para debater legalidade da Eutanásia. Contudo, o problema do plástico é realmente muito complexo. Se por um lado este material mostrou que causa a morte de milhares de espécies de animais marinhos (como a baleia que morreu depois de engolir 80 sacos de plástico), demora centena/milhares a degradar-se (a verdade é que ninguém sabe ao certo, o tempo necessário para a degradação varia com o tipo de plástico) e desfaz-se originando micro-plásticos que entram nas cadeias alimentares (ficam dentro dos animais marinhos que nós consumimos), por outro lado estamos a falar de um material de baixo custo de produção, fácil e prático de usar e que está presente em tudo. Estamos preparados para deixar de ter embalagens descartáveis, capas de telemóvel, tupperwares, o revestimento dos fios elétricos, as luvas usadas em cirurgias/restaurantes/laboratórios, aquelas pequenas coisinhas que estão na ponta dos atacadores dos sapatos? A economia mundial está brutalmente dependente do plástico e por tanto reduzi-lo não será fácil, por uma questão de lucros mas também por questões práticas.

Petróleo: Recentemente foi descoberto um jazigo, possivelmente rentável, ao largo da costa Algarvia. A possibilidade de ser explorada levantou uma onda de protestos, que argumentavam a incompatibilidade desta atividade com o turismo, os elevados impactos ambientais e o facto de a prospeção ter sido autorizada sem um estudo de impacto ambiental. As economias mundiais ainda dependem muito de combustíveis fosseis, Portugal ainda não é exceção, contudo temos sido um exemplo de um país que tenta mudar este paradigma investindo cada vez mais nas energias renováveis (solar, hídrica e eólica). Não tem muita lógica um país que investe tanto nas energias renováveis e na descarbonização da sua economia ir a correr furar o Atlântico em busca do “ouro” negro. Todos nós sabemos o impacto dos combustíveis fosseis no ambiente, desde aumentarem o efeito estufa até aos derrames. Queremos deixar de estar na linha da frente da energia renovável e dar dois passos atrás?

Biólogo e mestrando em biologia evolutiva e do desenvolvimento na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa