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Biologia e Política: Parte II

Apesar de distantes a biologia e a política não são incompatíveis muitas decisões políticas têm enormes impactos nas mais diversas áreas da biologia

05 Junho 2018

Recursos alimentares e fármacos: Num planeta com uma população de 7 mil milhões de pessoas e a aumentar, quase todos os governos têm uma preocupação: garantir alimento e água às suas populações. A necessidade por mais alimento nunca foi tão real e por isso intensificou-se e modernizou-se a agricultura, a pecuária e a indústria pesqueira, consequentemente houve uma queda na qualidade dos produtos devido ao uso de fertilizantes, herbicidas, inseticidas e hormonas de crescimento, já para não falar da degradação dos solos e dos recursos hídricos e da depleção dos oceanos e dos ecossistemas marinhos. Cada vez mais se pede uma agricultura mais tradicional, com menos químicos e mais parecida com a realidade dos anos 40. O problema é que esse estilo de agricultura foi abandonado por ser incapaz de alimentar populações muito numerosas e que pediam mais variedade de alimentos. Entramos assim num impasse, num lado a necessidade de alimentar uma população cada vez mais numerosa, destaque para os países do Este e Sudeste Asiático como a China, India e o Japão que têm populações muito numerosas e que ambicionam ter a mesma qualidade alimentar que as populações ocidentais, por outro uma população que exige alimentos mais saudáveis e uma agricultura/pecuária mais amiga do ambiente.

Uma das “soluções” que foram apresentadas foram os OGM (Organismos Geneticamente Modificados). Estes “super-organismos” são capazes de produzir mais com menos, contudo a ideia de consumirmos organismos desenhados em laboratório ainda assusta muita gente. Honestamente, não me assusta comer um organismo “desenhado” em laboratório, o maior problema continua a ser não conhecermos as consequências que estes organismos vão ter na nossa saúde. Contudo é necessário lembrar que nesta situação não devemos usar o argumento de que os OGM’s são errados por não serem “naturais”, praticamente todas as plantas e animais que usamos na nossa alimentação não existem em liberdade, são o resultado de milhares de anos de aperfeiçoamento genético, ainda que inconsciente, em função das características que nos eram mais uteis (animais com mais carne, frutos maiores, legumes com mais folhas, etc.)
Por fim temos ainda os fármacos. Apesar da grande maioria dos nossos medicamentos serem hoje em dia sintetizados em laboratório existem imensas plantas com propriedades medicinais que podem ser usadas para combater inúmeras doenças ou completar a nossa alimentação. Destruir florestas e condenar espécies à extinção sem antes conhecer o seu valor medicinal ou alimentar parece-me uma decisão errada e pouco calculista.

Conservação e Desenvolvimento Sustentável: Desafio o leitor a perguntar a qualquer pessoa se prefere ter o Parque Natural da Arrábida com vegetação natural ou com monoculturas de eucaliptos e pinheiro. Ou ainda se dariam um euro para ajudar na conservação de animais emblemáticos com a águia-imperial ou o lince-ibérico. Desconfio que ambos sabemos qual seria a resposta. Hoje em dia, grande parte da população está sensibilizada para este tipo de questões e sabe que temos de gerir de forma responsável os nossos recursos naturais, como as florestas, os corpos de água (rios e lagos) e preservar os nossos oceanos. Contudo parece que apesar de a população ser recetiva a estas questões a classe politica ainda não o é, pelo menos os partidos do arco da governação (PSD, PS e CDS-PP). Sei perfeitamente que a conservação não é, nem poderá nunca ser, o foco destes partidos, contudo seria benéfico sabermos que os principais partidos preocupam-se com estas questões e que têm grupos de trabalho a eles dedicados, de preferência criados antes destas questões serem abordadas na assembleia. Como o PSD, PS e CDS não se mostraram até agora preocupados, esta missão tem caído em partidos que têm uma menor expressão na política portuguesa ou de ideias mais radicais. A principal consequência disto é que estas questões acabam por ser esquecidas e que as pessoas que desejam que o governo se responsabilize pelo nosso património biológico são “obrigados” a votar nesses partidos de pequena expressão para verem na assembleia alguém que se interesse por estas questões. Outra consequência é o afastamento de pessoas que apoiam a conservação e que querem um desenvolvimento sustentável menos virado para a queima de combustíveis fosseis, mas que contudo não aceitam (nem têm de o fazer) as opiniões mais radicais destes partidos e optam por um voto mais seguro.
Espero, caro leitor, com este artigo tê-lo feito perceber que apesar de distantes a biologia e a política não são incompatíveis e que muitas decisões políticas têm enormes impactos nas mais diversas áreas da biologia. Porém não nos devemos esquecer que a política é o instrumento de regulação da atividade humana, contudo o ser humano será sempre um organismo biológico.

Biólogo e mestrando em biologia evolutiva e do desenvolvimento na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa