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Américo Nunes

Biologia e Politica: Parte I

À primeira vista, parecem duas áreas demasiado distintas e intocáveis mas existem diversos pontos em que estas duas áreas se intercetam

17 Maio 2018

À primeira vista, parecem duas áreas demasiado distintas e intocáveis, os biólogos preocupam-se em perceber melhor os fenómenos e processos biológicos e em descobrir novas espécies, enquanto os políticos se preocupam com leis, o papel do estado na sociedade e a carga fiscal. Contudo as aparências iludem, e apesar de não terem uma relação direta existem diversos pontos em que estas duas áreas se intercetam. Para que estes artigos não se tornem numa chata monografia, vou apenas apresentar 5/6 pontos onde considero que a biologia tem um impacto na politica e/ou vice-versa e abordá-los muito pela rama, com a promessa que alguns serão abordados mais detalhadamente em artigos futuros.

Limites legais em Investigação: Num passado artigo, já me referi à utilização de animais modelo em investigação e da importância dos mesmos. Sou um defensor ávido de que deve haver uma regulamentação, quer seja no tipo de organismos utilizados, o porquê da sua utilização e que tipo de testes/tratamentos serão sujeitos. Outras questões são por exemplo o uso de embriões e células humanas em investigação, em especial no caso dos embriões, motivos de grande debate e questões éticas. Não fazendo sentido deixar de se debater estes assuntos devido à sua complexidade e impacto social, devemos sempre ter em conta que estes “recursos” biológicos permitem uma investigação mais completa e profunda em áreas da medicina, reprodução medicamente assistida e na compreensão e combate de doenças. Os governos não devem ter medo de abordar estas questões visto que são a base de muita da investigação em biomédica. Devem, contudo, abordá-las sabendo que medidas demasiado liberais poderão dar aso a que se faça experimentação de forma descontrolada e legislação muito restrita poderá levar a que alguns laboratórios abandonem o país e/ou que a investigação pare.

Ensino da Biologia: Depende se o estado chama a si a responsabilidade da educação da sua população. Estados com este sentido de responsabilidade (Portugal, por exemplo) estruturam programas curriculares abrangentes, que deem uma ideia geral da Biologia, focando os principais tópicos e subdisciplinas (Ecologia, Genética, Evolução, Desenvolvimento por exemplo). Contrastando com o modelo português temos o modelo americano (EUA) em que o estado não encara a educação como responsabilidade sua. Como tal existe um enorme número de escolas privadas que selecionam o conhecimento que querem transmitir. Os dois modelos têm vantagens e desvantagens. Poderá ser benéfica uma escola ter a liberdade para ajustar os programas em função do tempo, docentes ou mesmo gosto dos alunos, contudo acredito que a escolaridade deve ser geral a todos e que não expor os alunos a alguns conceitos importantes mais “chatos” ou “pouco práticos” poderá ser uma desvantagem para o seu futuro, há ainda a questão de quem escolhe, se couber ao diretor decidir os programas e este for formado em línguas, não deverá, em principio, ter uma noção tão clara dos principais assuntos e temáticas numa ciência.

Racismo, Eugenia e “Boa Genética”: O que é que tem mais peso, a nossa origem ou a nossa educação? É um dos temas que mais discussão causa. A questão parece simples e inofensiva mas é tudo menos isso. De uma forma prática estamo-nos a perguntar se, por exemplo, um homem de negócios é bem-sucedido devido à sua formação ou devido à sua genética. No caso da primeira isto significa que com uma boa educação qualquer um poderá ser bem-sucedido, contudo se for a segunda significa que algumas pessoas, as que têm “maus genes” nunca serão bem-sucedidas, por mais ajudas que lhes deem. Este tipo de questões são muito controversas e felizmente a resposta parece ser uma complexa interação das duas componentes. A mesma questão pode ser colocada de outro prisma, será que as diferentes etnias apresentam características a elas associadas, por exemplo será que as pessoas de pele negra são em média melhores velocistas que os de pele branca? No passado algumas pessoas acharam que havia efetivamente características especificas das várias “raças” e que a “raça” branca é a que apresenta melhores características e como tal devemos limpar a humanidade das “raças” “indesejadas” ou mesmo de pessoas que sendo da “melhor” “raça” são claramente inferiores. Podemos enquadrar nesta má interpretação da Biologia os ideais de partidos políticos como o Socialista-Nazi de Hitler ou outros grupos de supremacia branca. Há ainda correntes ideológicas que defendem a eugenia, ou seja o apuramento da espécie humana, através de cruzamentos seletivos. Estas correntes tinham como objetivo eliminar da raça humana, os genes que são causadores de doenças, ou características negativas. À primeira vista até parece uma excelente ideia, contudo a eugenia peca em dois pontos fundamentais: o primeiro assume que as características são em grande parte fruto da genética, o que não é de todo verdade. Um exemplo disto é o cancro no pulmão, existem pessoas que devido ao seu genoma (conjunto de genes de um individuo) apresentam uma maior probabilidade de sofrer cancro do pulmão, contudo uma pessoa que apresente uma baixa probabilidade tem boas hipóteses de se tornar vitima desta doença se for fumadora, ou seja o meio ambiente tem tanta ou mais influência que a genética. O outro ponto é o método empregado pela Eugenia para atingir os seus objectivos, que vão desde restrições a casamentos até esterilizações e abortos forçados.

Biólogo e mestrando em biologia evolutiva e do desenvolvimento na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa