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Panteão: sim ou não?

Era uma vez um menino que sonhava fazer qualquer coisa de bom e diferente quando fosse mais velho.

22 Novembro 2017

Era uma vez um menino que sonhava fazer qualquer coisa de bom e diferente quando fosse mais velho.
Certo dia conseguiu realizar o seu sonho, mas, de forma totalmente inesperada, acabou por ir parar a um mundo habitado por mortos.
As duas frases do parágrafo anterior são a sinopse do novo e extraordinário filme de animação da Disney/Pixar, "Coco", mas podem adaptar-se em sentido figurado à situação vivida recentemente em Portugal por Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit. O jovem irlandês que trouxe para o nosso país o maior evento mundial na área da inovação, acabou por ver-se envolvido na polémica utilização do Panteão Nacional para o jantar de encerramento da cimeira.
Assumo desde já que considero da maior relevância para Portugal acolher a Web Summit, face à repercussão da mesma na economia, no empreendedorismo e no turismo. Sem esquecer, claro, a visão que passamos ao mundo de um país acolhedor e que incorpora o melhor de dois mundos, ao aliar como poucos a tradição e a modernidade.
Não obstante o que acabei de escrever, defendo que neste e noutros casos não nos podemos deixar cair na tentação do deslumbramento e de um certo "nacional-porreirismo", que nos leva a estender a passadeira a tudo o que vem de fora sem muitas vezes fazer o necessário juízo crítico. Sinceramente vos digo que até me admira como ainda ninguém ofereceu uma "casinha" de mão beijada à Madonna…
Relativamente à utilização do Panteão Nacional para o jantar da Web Summit, não sou radical ao ponto de afirmar que o mesmo é comparável a um piquenique num cemitério. Convenhamos, todavia, que há muitos espaços históricos sem a carga emocional e votiva da Igreja de Santa Engrácia e, como tal, mais "adequados" a acolher almoços, jantares ou concertos.
A realização de eventos privados em monumentos nacionais acaba por ser consequência das parcas verbas alocadas em cada Orçamento de Estado para a preservação do nosso rico e vasto património histórico. Assim sendo, a Direcção-Geral do Património e outras instâncias públicas ou privadas que tutelam os espaços classificados, têm no aluguer desses monumentos uma fonte de receita extra que, como diz o povo, dá para limpar umas remelas.
Acontece que a cedência de espaços históricos para eventos está legislada desde há uns anos a esta parte e, como a classe política não pode assobiar para o lado, entristece-me ver agora o cortejo de "virgens ofendidas" que, da esquerda à direita, se manifestaram escandalizadas com uma situação que, indiscutivelmente, conheciam. Irrita-me por isso o sacudir de água do capote em que os nossos políticos parecem ter-se tornado peritos e, ao mesmo tempo, a (in)capacidade de reagir só depois dos factos consumados.
Em última instância, Paddy Cosgrave e equipa da Web Summit foram os menos culpados de tudo o que aconteceu e não mereciam ser usados como arma de arremesso. Não praticaram qualquer ilícito à luz do que se encontra legislado e, tanto quanto se sabe, não foi desrespeitada em nenhum momento a memória dos nossos ilustres antepassados cujos restos mortais repousam no Panteão.
Já agora, para que conste, é possível falar da morte e dos nossos entes queridos já desaparecidos de uma forma simultaneamente respeitosa, lúdica e até divertida. Quem tiver oportunidade de ver o filme "Coco" - que recomendo vivamente a miúdos e graúdos - perceberá o que estou a dizer.