Linhas de Elvas
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O burro sou eu?

Segundo a parábola do velho, o rapaz e o burro, à qual recorro com alguma frequência, as opiniões são como as cerejas. Muitas, variadas e nem sempre acertadas.

11 Outubro 2017

Segundo a parábola do velho, o rapaz e o burro, à qual recorro com alguma frequência, as opiniões são como as cerejas. Muitas, variadas e nem sempre acertadas.
Nessa estória, quando o miúdo e o idoso vão a pé, há quem os apelide de idiotas por não aproveitarem o dorso do animal. Já se o rapaz for montado, choverão críticas por permitir que o idoso caminhe pelo seu pé. Mas se, ao invés, for o velhote montado no jumento, haverá quem o repreenda por permitir que a criança siga a pé.
Vem este intróito a propósito de uns focos de polémica que foram ateados nas redes sociais - sempre elas... - pelo facto do concerto dos Xutos & Pontapés na Feira de S. Mateus ter esgotado, ficando de fora muita gente que a ele queria assistir. Partindo da ridícula premissa de que é impensável colocar o cartaz de "Esgotado" num espectáculo com estas características, derimiram-se no Facebook os mais díspares argumentos, alguns dos quais pautados pela sensatez mas outros de uma aleivosia gritante.
Não sei se por outras paragens acontece o mesmo mas constato com tristeza que, em algumas circunstâncias, os elvenses revelam baixa auto-estima em relação ao que acontece por estas paragens. Quando não temos certas coisas carpimos mágoas por não as ter; mas depois, se elas se tornam realidade, somos pródigos em encontrar defeitos.
Críticas, polémicas e (já agora) política à parte, considero que o cartaz de espectáculos do S. Mateus 2017 se destaca pela variedade de propostas, sendo por isso transversal a variados públicos. Um cartaz que, atrevo-me a dizer, a acontecer noutra localidade do país, mereceria rasgados elogios e até nem faltaria quem argumentasse que "em Elvas não se faz nada assim"...
Olhando as quatro noites de concertos que ficaram para trás, registo o regresso de Herman José à grande forma como entertainer genial e a energia contagiante dos Xutos num pavilhão a rebentar pelas costuras. Pelo meio tivemos os dois Miguéis, Gameiro e Araújo, o primeiro num espectáculo sempre em crescendo, graças aos hinos de uma geração; e o segundo numa performance inesquecível, sustentada em músicos de primeira linha e num compositor e intérprete que, ao nível dos poemas e melodias, é digno sucessor de nomes como Carlos Paião ou António Variações, entre outros.
Quando sai a público esta edição do Linhas falta a segunda tranche de concertos, com Piruka, Diogo Piçarra, Matias Damásio e Tony Carreira como cabeças de cartaz, além de, como até aqui, os serões se prolongarem madrugada dentro com os DJ's. Enquanto isso cá fora, pelo palco da Praça da Feira, continuarão a desfilar artistas e grupos do concelho de Elvas.
Então não acham, caros leitores, que estamos perante um cartaz digno dos melhores certames do país e que, decididamente, o nosso S. Mateus há muito pedia e merecia? Concordando que há arestas a limar, penso que o caminho a seguir é este.
Referi ao início o episódio do velho, o rapaz e o burro para ilustrar como é humanamente impossível agradar a gregos e troianos. Mas, caramba, quando alguém vem perorar contra o programa de espectáculos das nossas festas, só me apetece responder com a célebre expressão de Luiz Filipe Scolari que também metia um animal asinino pelo meio: - E o burro sou eu?