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Peixe ou cana?

No que a Eleições diz respeito, parece-me que existe uma enorme diferença entre querer ganhar apenas, e querer ganhar para fazer melhor.

17 Agosto 2017

Aviso: este texto é só para quem tem os pés bem assentes no chão.

No que a Eleições diz respeito, parece-me que existe uma enorme diferença entre querer ganhar apenas, e querer ganhar para fazer melhor. Desconheço que espécie de droga é esta chamada Poder, pela qual se promete o impossível e o disparatado, pela qual se diz o que se julga que as pessoas querem ouvir, em troca de votos, tendo como única meta vencer. Pessoalmente, quando ocupei algum lugar de destaque, o que senti foi uma enorme responsabilidade por saber que, de alguma forma, as minhas decisões poderiam condicionar, para o bem e para o mal, as vidas das pessoas. E os passos em falso serem proibidos.

Não acredito no “vale tudo”. Acredito, antes, na coragem e honestidade de explicar bem aos interessados que a vida é difícil, mas que temos intenção de a tornar mais fácil, não apenas na pequenez do imediato, mas a longo prazo. Semeando e alicerçando.

É inquestionável que não pode faltar a ninguém um tecto, um trabalho, acesso à Saúde e à Educação. Se a chamada Esquerda política considera que estes princípios constituem uma bandeira só sua, engana-se redondamente. Há temas de tal modo estruturantes e essenciais que são dogmas de todos os Partidos de Esquerda, Centro ou Direita. Porque nós, no seio da comunidade em que estamos inseridos, cuidamos uns dos outros. Hoje por ti, amanhã por mim. Regra básica: ninguém é deixado para trás.

Se a intenção de todas as forças políticas é garantir o bem-estar de todos os cidadãos, é na forma de o conseguir que residem as diferenças. Dar o peixe, ou ensinar a pescar?

A minha geração foi educada para entender que quem mais faz, mais recebe e que quem escolhe fazer menos, assume essa escolha. Se o esforço não for premiado, é ingenuidade pensar que alguém se esforçará. E sem esforço, não há evolução. Nem sequer sobrevivência, seja ela individual ou colectiva.

O vídeo tem poucos minutos. Mas foram suficientes para o candidato comunicar ao povo que, se vencer as eleições, implementará apoios financeiros que irão abranger todas as faixas etárias. Alguns, sem olhar a rendimentos. Para garantir, segundo as palavras de um meu companheiro de armas, que “as pessoas já não precisarão de preocupar-se com mais nada, nem sequer trabalhar”.

E foi quando me lembrei daquele empresário agrícola Elvense que, um dia destes, contava a uns conhecidos que se tinha visto aflito para encontrar, em Elvas, quem quisesse trabalhar. Dito empresário tinha pomares cheios de fruta para colher e, por razões óbvias, só contratava dentro da legalidade, com recibos passados. Parece que ainda apareceram por lá alguns interessados no trabalho, o problema foi que não tinham interesse algum em declarar os rendimentos, com medo de perder os apoios sociais. Eu fico sempre intrigadíssima com apoios e subsídios cuja dimensão leva a que uma pessoa não arrisque trabalhar… Como a fruta não espera, uma vez que a Natureza não atende a razões que não as próprias, os trabalhadores que acabaram por colhê-la vieram, na sua maior parte, de Borba, Vila Viçosa e Estremoz, tendo os mesmos voltado aos seus respectivos municípios com o dinheiro no bolso.

Fenómenos destes, porque não encontro melhor palavra para os definir, acontecem todos os dias. Basta reparar que, por vezes, um anúncio de emprego se repete semana após semana, sinal inequívoco de que não apareceu ninguém para ocupar o lugar. Num concelho como o nosso, onde todos enchemos a boca contra o Desemprego, não deixa de ser estranho que isto aconteça. Duvido, à luz do que sei, que se passe o mesmo em Borba, Vila Viçosa ou Estremoz.

O candidato que fez o vídeo não é mais esperto do que os outros. Afinal, este método simples e fácil de angariar simpatizantes está nos manuais. Resultava muito bem quando os cidadãos não tinham o nível de Educação e Cultura que têm hoje em dia. Era uma espécie de toma lá (o apoio), dá cá (o voto). Continua a constar nos manuais, sim, mas naqueles que oferecem recomendações sobre “como não fazer política enganadora”. Outros candidatos, por enquanto, não usaram este método porque decidiram não o fazer. Porque têm outra visão. Porque escolheram outro caminho. O tempo dirá se foi a decisão correcta, mas uma coisa é certa: provaram que têm consciência. Que estão pela verdade.

Deve a Câmara Municipal zelar para que os Elvenses que precisem sejam apoiados socialmente? Sem dúvida que sim. Mas será que a Câmara Municipal tem os mecanismos de controlo necessários à distribuição justa e pertinente desses apoios? Evidentemente que não. Se nem o Instituto Nacional de Segurança Social, um órgão gigantesco, à medida de um país inteiro e vocacionado exclusivamente para esta área, consegue fazê-lo eficazmente, como pode consegui-lo uma Autarquia, por muitos protocolos que estabeleça?

 A dependência dos Apoios Sociais deve ser transitória e passageira. A quem aguarda por um trabalho têm de ser proporcionados meios activos de procurá-lo, de estar preparado para o lugar através de formação adequada e deverá, necessariamente, existir um cruzamento de dados entre a Autarquia, o I.E.F.P. e o I.N.S.S. para apurar quem recebe apoios a menos ou a mais, quem recusa ou aceita trabalho e quem precisa, não apenas, de formação como, igualmente, de orientação no que diz respeito a percursos laborais ou economia doméstica, e por aí fora.

Se concordarmos que a Câmara Municipal não pode, nem deve querer ocupar o lugar de Instituições de Apoio e Solidariedade Social, porque não é a sua área e não sabe fazê-lo adequadamente, poderemos exigir à Câmara que dedique mais tempo e verba a fazer aquilo que lhe compete verdadeiramente, e que é a sua missão nos dias que correm: promover, incansavelmente, a criação de Emprego. No fundo, acabar com a necessidade de apoios sociais. O Concelho de Elvas tem de gerar riqueza que o sustente e salvaguarde.

É difícil? Sim. É impossível? Não. É urgente colocar no lugar certo quem tenha ideias claras e planos bem delineados neste sentido, sem demora. Que isto da Igualdade é louvável e muito bonito, mas se acabarmos todos igualmente pobres, perde a piada.

A pensar em Elvas, a pensar no Futuro.