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Passado ou futuro?

O meu avô paterno, que Deus tenha em descanso, viveu três ferozes paixões durante toda a sua vida: a minha avó, o Sporting Clube de Portugal e o Partido Socialista. Usava o símbolo do Partido ao peito, e julgo ter chegado a vê-lo com o dito na lapela do pijama.

19 Julho 2017

O meu avô paterno, que Deus tenha em descanso, viveu três ferozes paixões durante toda a sua vida: a minha avó, o Sporting Clube de Portugal e o Partido Socialista. Usava o símbolo do Partido ao peito, e julgo ter chegado a vê-lo com o dito na lapela do pijama.

Nascido em 1923, o meu avô pertenceu àquele grupo de portugueses que levou, e continua a levar, muito a sério a possibilidade de exercer o seu direito de voto. A partir do dia em que a liberdade de escolha chegou, não falhou nenhum acto eleitoral e nunca perdeu muito tempo a analisar candidatos, programas ou conjunturas. Meteu o Partido no coração e foi para sempre fiel a essa orientação de voto. Cegamente.

A cegueira, por vezes, é a condição que os outros nos atribuem quando não estão de acordo com as nossas ideias. Mas convenhamos que declarar lealdade incondicional a uma máquina partidária, independentemente do maquinista que a dirija, é deixar-se conduzir por um túnel bem escuro.

Existem muitas diferenças, necessariamente, entre a geração dos meus avós e a minha. Mudou o mundo, mudou o sistema em que somos educados e mudaram as expectativas, entre outros milhares de coisas. Acima de tudo, gosto de acreditar que possuímos, hoje, um espírito crítico mais apurado e que tomamos decisões importantes com base nesse esforço de avaliação das pessoas e das coisas, numa palavra: da realidade.

Esta “generation gap”, ou diferença entre gerações, foi a responsável pela decisão dos cidadãos britânicos de abandonar a União Europeia. No próprio dia em que o resultado foi anunciado, começaram as massivas manifestações contra a decisão tomada, por maioria, em referendo legítimo, horas antes. Os protestos, levados a cabo nas principais cidades do Reino Unido, com a necessária relevância dos ocorridos em Londres, mostravam cidadãos jovens em total desacordo com o resultado. Pouco depois, com base nas sondagens que tinham sido feitas à boca das urnas e com o contributo das múltiplas análises da comunicação social ao fenómeno nos dias a seguir, pudemos entender o que tinha acontecido: tinham sido os cidadãos de mais idade, em inevitável maioria numa sociedade envelhecida, que têm um sentido de dever cívico que os leva a votar sempre, faça chuva, faça sol, tinham sido os integrantes desta faixa etária a dar a vitória ao Brexit. Porque tinham sido receptivos à campanha eleitoral pró saída, baseada em argumentos saudosistas da grandeza do Império Britânico, do mote insular do “Orgulhosamente sós”, argumentos estes que nunca poderiam ter convencido os mais novos, uma vez que é impossível sentir a falta de algo que nunca se viveu.

Foi uma vitória do passado sobre o futuro e disso mesmo se queixavam os seus filhos e os seus netos. Lembro-me de uma rapariga ter dito, em directo para um canal de televisão, que era injusto que a geração dela, e as que viriam a seguir, tivessem de viver com as consequências de uma decisão tomada por quem, muito provavelmente, pouco ou nada esperava já do futuro. Por quem, por lei de vida, tinha menos probabilidades de ver esse futuro. Mas que o tinha condicionado para sempre.

Há poucos dias, encontrei uma amiga de sempre à porta de um supermercado. Elvense de gema e pessoa espirituosa. Acabou por ser ela quem me deu o mote para este texto. Vale sempre a pena ouvir o que as pessoas têm para dizer! Falámos de muitas coisas e, claro está, também das eleições autárquicas. Disse-me a São, em tom de brincadeira: “Os idosos, no geral, votam em quem lhes dê bilhetes grátis para os espectáculos e jantaradas. Não pensam nos filhos e nos netos, que não têm trabalho.”

Foi nesse instante que recordei a rasteira que os britânicos mais velhos tinham passado aos mais novos. E, como não podia deixar de ser, imaginei uma cena que, infelizmente, não acontecerá: eu, a tentar convencer o meu avô, que era mais teimoso que todas as portas, a analisar, a avaliar, a pesar os prós e os contras e, finalmente, a ponderar votar, por uma vez que fosse, na mudança e no Futuro.