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Opinião

A Ministra, o Barrete e a Pega

Embora entre Évora e Elvas lhe tenham ocorrido diferentes versões da esfrega, veio então a Sra. Ministra mostrar-nos como funciona o departamento da cultura democrática.

09 Julho 2020

I - A (Des)Graça de uma Recusa em Évora

O mantra “entendamo-nos”, ou o ainda mais imperativo “entendamo-nos bem” fazem parte da linguagem fria frequentemente utilizada no discurso autoritário de uma infeliz clique que se tem por vanguardista e sabichona para policiar e chamar à razão as massas.

Em aparente paradoxo, o pacote proveniente do espectro político mais frequentado por estas luminárias costuma trazer também uma atitude religiosa consubstanciada na utilização de uma moral de culpa tão tipicamente judaico-cristã. Insuportáveis, na sua unção, gostam então de se pôr a julgar: Aficcionado? Culpado de crueldade. Come carne? Culpado das alterações climáticas. Caçador? Culpado de atentar contra a biodiversidade. Agricultor? Culpado pela insustentabilidade. Feliz? Culpado pelo desuso.

Isto é, o rabo racional esconde o gato inquisidor e, quando acaba a assumir responsabilidades governativas, o felídeo faz questão de não deixar os seus créditos por garras alheias. Há já quase dois anos, qual Rá, chegou para nos iluminar a actual Ministra da Cultura. Dando-se ares de quem das coisas do campo sabe que serão “tipo uma maçada com vegetação, bichos e assim”, trouxe no entanto com ela um verdadeiro “estado da arte” na produção de civilizações.

Recentemente, foi ao indigenato transtagano que ela concedeu a honra de pastorear na sua descida até à planície. Embora entre Évora e Elvas lhe tenham ocorrido diferentes versões da esfrega, veio então a Sra. Ministra mostrar-nos como funciona o departamento da cultura democrática.

“São palavras ofensivas e atacam as pessoas que têm uma paixão e um sentimento positivo por uma prática que no nosso país é considerada cultural”. Esta foi a pronta resposta do Ministro da Cultura espanhol ao dono da empresa Neat Burger, mais conhecido por ser o actual campeão mundial de fórmula1. Esta empresa comercializa hamburgers vegan e as ofensivas palavras “verdadeiramente repugnante, Espanha!” surgiram num insultuoso post ao lado de um touro de lide morto que seguramente não seria destinado a ser servido nos seus restaurantes.

Como agora em Espanha, em Portugal também já tivemos autoridades como o Presidente Jorge Sampaio a providenciar as adequadas condições para o enquadramento institucional da tauromaquia a partir da dialéctica que deve ser intrínseca a estas temáticas. Chamou-lhe “pluralismo cultural”, por forma a promover a diversidade e a tolerância de políticas inclusivas. Em vez disso, o que agora nesta matéria nos governa são políticas não-inclusivas em que o preconceito ideológico está ao serviço do mais primário sectarismo e em que a Ministra não só não sai em defesa da cultura do seu país, como é ela própria a excluir e a interpretar a agressão.

“Há valores civilizacionais que diferenciam políticas” e “a tauromaquia não é uma questão de gosto, é uma questão de civilização” são pérolas retóricas com que nos acossou na Assembleia da República antes de vir a Évora para, de forma acintosa e grosseira, se recusar a receber um barrete de forcado da parte do “incivilizado” grupo desta cidade-museu e património mundial UNESCO. É que Évora, sendo uma cidade histórica, é também cosmopolita e expoente de uma moderna ruralidade e aquele barrete de forcado era bem a representação dessa síntese de tempos e de gentes no centro do amplo espaço cultural nacional do touro bravo.

Se é legítimo o desacordo individual de alguém que, por receber um barrete de forcado teme ser sugada para uma máquina do tempo que a transporte até à idade da pedra, da Ministra da Cultura de um país civilizado são inaceitáveis a acrimónia, a soberba e a falta de respeito a um símbolo identitário com as cores nacionais.
É duma reminiscência de origem militar que procede a farda de forcado. Pontuada pelo vermelho por referência ao perigo, ao sangue mas também à paixão, tem três elementos principais: o barrete verde e o calção cor de trigo simbolizando os ciclos contínuos de uma natureza perene com o que nela começa verde para depois amadurecer e a jaqueta com as ramagens a aportarem uma estética significativa da capacidade do Homem para elaborar em complemento
ao que é natural.

Ficando assim a indumentária qualificada para as luzes da solenidade, é no entanto o barrete a peça de maior protagonismo. Distingue o forcado da cara na pega, é com ele que é feita a saudação aos representantes do Estado através da Inspecção Geral das Actividades Culturais e serve também para a dedicatória prévia e posterior agradecimento dos aplausos.

Por ser a peça de maior significado institucional, a jaqueta é devolvida ao grupo no fim do tempo de participação do forcado. Já o barrete é guardado como relíquia pessoal para poder ser passado de geração em geração, até um dia lhe acontecer ser recusado pela Ministra da Cultura do mesmo país em que é um símbolo cultural. Para além disso, é também a síntese de um sistema de valores tal como ele vem sendo divulgado a partir de 1915. A partir daí, com a sua fundação, o Grupo de Amadores de Santarém estabeleceu as actuais referências técnicas, estilísticas e comportamentais para os intérpretes da moderna arte de pegar touros e por isso já
foi condecorado por três Presidentes da nossa República.

Haverá desconsideração pela condição da mulher em Podence porque os diabólicos Caretos perseguem e chocalham as raparigas no Entrudo? Será a Falcoaria um anacronismo por ser uma forma de caça com luta entre animais? E será para estes humilhação a Arte Chocalheira? O Cante alentejano ser quase sempre interpretado por homens e os Bonecos de Estremoz serem originariamente só feitos por mulheres porão problemas de desigualdade de género? A questão é qual o enquadramento adequado e em que plano é relevante estas matérias serem analisadas.

Porque se para a UNESCO não houve dúvidas na sua classificação como património cultural imaterial da humanidade, para a nossa sensível e ensimesmada Ministra, o mais provável é haver também por aqui problemas com os “valores civilizacionais”.

A tauromaquia é uma das genuínas expressões culturais que enriquecem o nosso país, devendo por isso encontrar representação e ser acarinhada no ministério da cultura. Tendo também ela a sua principal expressão na geografia e no caldo cultural que já ofereceu a Portugal a maior parte do nosso património cultural imaterial da humanidade, se somos assim culturalmente tão reconhecidos pela UNESCO, talvez a nossa própria Ministra da Cultura deva evitar a falta de civilidade e a ausência de sentido de Estado quando nos trata como desqualificados.

Diletante, começou por nos informar que havia 170 obras de arte no seu ministério que não se encontravam desaparecidas, do que precisavam era de uma localização mais exacta! Negligente, já em pandemia, propôs um Festival de Artistas Confinados, TVFest, em que num esquema de pirâmide, a cada artista caberia indicar os seguintes a actuar!

Trapalhona, arranjou confusão não só com os critérios que lhe permitiram eleger as Edições Avante para ajudas Covid-19 à comunicação social, mas também com as contas no apuramento dos montantes para a atribuição desses apoios extraordinários!

Refém do politicamente correcto, não consegue a Sra. Ministra inspiração que lhe desentorte um ministério disfuncional e asséptico, nem desígnio que possa oferecer à cultura do seu país! Inconsciente, no seu radicalismo afectado, não se dá conta que ser tecnicamente incompetente e abusar da falta de elevação é acabar a alimentar um radicalismo oportunista de sinal contrário, ultramontano e demagogo.

Alguém disse que “decente, é não tratar mal ninguém”. Se à Sra. Ministra custa a inteligência, ao menos lhe possa valer a decência para a demissão.


II - A Pega a Património Cultural Imaterial da Humanidade

Tornar o campo útil é a racionalidade que enquadra a agricultura desde o advento do sedentarismo. Mas, contrariando essa lógica utilitarista, a um sucessor do auroque original foi-lhe sendo seleccionada uma característica psicológica que é a bravura e assim se garantiu até hoje que não se extinguia um animal sem outros préstimos diferenciadores.

É que a humanidade sempre precisou de contrapontos místicos à sua racionalidade e, no seu esplendor selvagem, o touro bravo é tido desde tempos imemoriais como animal sagrado e símbolo divino da força e da fecundidade.

Recriando na pega esse combate ancestral de máximo risco, estamos então a exaltar uma natureza que é primordial e pura e à qual um homem moderno em rito de iniciação se transcende para continuar a ser capaz de lhe abrir os braços, numa rara síntese e em afirmação de uma saudável relação.

Assim, sem o que para eles seria a afronta de uma remuneração, apenas por respeito a uma tradição, pelo prazer da pertença e pelo estímulo cénico, o grupo de forcados amadores consuma essa forma de “sorte suprema”, definidora da originalidade da corrida de touros à portuguesa.

Ao contrário da versão épica dos nossos vizinhos espanhóis, nós fazemos desse momento último um interpretação lírica mas despojada e, em vez da morte do touro, executamos-lhe uma pega que simboliza a sua derrota, concretizada com respeito e sem outras armas para além dos braços e do companheirismo dos forcados chefiados por um cabo. Este, para além dos critérios técnicos, observa um critério de proximidade da origem do forcado a quem vai “dar” a cara do touro com a praça em que acontece a corrida.

Perante o adversário parado, o forcado escolhido deve então liderar o grupo para citá-lo, dando-lhe todas as vantagens, mandando-o vir de largo, pelo seu caminho, sem estranhos e sem meter as mãos por diante para que a investida seja templada mas franca e que, à córnea ou à barbela, seja consumada uma reunião emotiva e esteticamente adequada.

Numa plena afirmação de carácter colectivo, a mesma gesta capaz de submeter a fantástica divindade hastada, tem depois a grandeza do seu indulto para que seja devolvida aos cabrestos, súbditos eunucos indignos do palco de combate que só podem pisar para a recolha em guarda de honra ao seu monarca.

A cada pega fica assim assegurada a continuidade do ritual porque, ainda que fabuloso, o homem precisa de um poder que lhe continue a medir o seu, num teste às sucessivas gerações. Destas, num processo que em simultâneo honra e preocupa as respectivas famílias, são feitas escolhas, veste-se-lhes uma farda e esses heróis, em obediência a uma ética, recriam uma velha lenda em que homem e natureza se desafiam mas se completam num jogo que é eterno.

Recentemente, vivendo principalmente em cidades cada vez mais opressivas, ao homem foi-selhe gradualmente reduzindo a distância interpessoal e o espaço natural mas, naquilo a que Cesário Verde chamou “desejo campestre de libertação”, não pôde resistir ao chamamento e às emoções daquele jogo. No entanto, joga agora apenas consigo próprio, é um capitão quem comanda, e esse jogo chama-se futebol.

Neste momento de crescente intolerância em que a ignorância se torna cada vez mais agressiva e um radical assédio disputa terreno ao bom senso, muito importante seria a intervenção dos poderes públicos para o restabelecimento dos equilíbrios em risco.
Por isso, ao mesmo Dr. António Costa, agora primeiro-ministro do meu livre e democrático país, que enquanto autarca de Lisboa honrou o Grupo de Forcados Amadores da nossa capital com as chaves da cidade, venho solicitar que possa instruir o Sr. Embaixador de Portugal na UNESCO no sentido de ser lançado o processo que conduza à classificação desse monumento antropológico que é a Pega de Touros como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Joaquim Fouto Varela do Nascimento é agricultor e reside em Ervedal no concelho de Avis