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Opinião

Manual prático de vandalismo local

Em tempos de loucura colectiva é essencial não se perder o comboio da insurgência, que não passa todos os dias. E se na província longos já vão os tempos em que as notícias chegavam com atraso considerável, hoje não existem desculpas para uma actualização diferida da realidade.

23 Junho 2020

Em tempos de loucura colectiva é essencial não se perder o comboio da insurgência, que não passa todos os dias. E se na província longos já vão os tempos em que as notícias chegavam com atraso considerável, hoje não existem desculpas para uma actualização diferida da realidade. Quanto a comboios (e quem vos escreve viveu duas décadas frente a uma estação de caminhos-de-ferro), bem que podemos esperar sentados que eles já não passam. O meu avô António Luís, de saudosa memória, costumava-me dizer que os Abreus tinham visto o comboio passar muitas vezes, mas isso é outra história. Não obstante, e como dizia, quanto a notícias não estamos menos privilegiados que quaisquer habitantes da metrópole. Daí que seja pertinente pensar-se numa mobilização cívica local para concretizar as ânsias de rebelião que nascem de quem esteve amordaçado tanto tempo. Quem diz amordaçado diz ressabiado, porque actualmente mordaças e censura só existem para quem preencha determinados estereótipos de direita, católica, conservadora, patriótica ou carnívora. Todos os outros antes têm uma via rápida de livre verborreia, com quotas para serem preenchidas, percentagens para minorias, e por aí fora.

À mais recente decapitação de Baden Powell em Coimbra ou à remoção da estátua de Roosevelt do Museu de História Natural de Nova Iorque juntam-se muitos outros episódios de desfiguração ou vandalização estatuária que só não merecem elenco porque já foram amplamente divulgados. Mas como bom provinciano, ainda que com a incongruência de quem se diz ser elvense e ter nascido e viver agora em Lisboa, não gosto que Elvas esteja à margem dos grandes acontecimentos nacionais, pois esta cidade, tal como Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre as cidades da Judeia (Mateus 2, 6). Assim, proponho desde já que se faça uma revisão histórica e estética pela estátuas da cidade, pois muitas delas terão contas a ajustar com as minorias ofendidas que agora de lata de tinta e serrote invadem as principais artérias do país.

Comecemos extramuros. Quanta atenção tem sido prestada a D. Sancho II? Essa efígie do Estado Novo que timidamente se assoma frente à Avenida de Badajoz e de costas com o Tribunal terá muito que responder. Pois se este rei é responsável (ou pelo menos a ele são dadas as honras) de definitivamente ter conquistado Elvas aos mouros, com que direito – perguntamos já – veio este descendente de borgonheses Portugal abaixo expulsar infiéis tão pacíficos? Neste caso não será útil fazer-se uma retrospecção demasiado aprofundada, pois esbarraríamos com outros “ocupas” como o Império Romano ou, mais recentemente, os apologistas do PREC. Mas fazendo vista grossa a essas nuances historiográficas, podemos exortar já os activistas de serviço a uma decapitação limpa na nuca de bronze do “Capelo”. Avenida acima, quem temos mais para mutilar? O pobre bombeiro, que há anos demais trepa uma escadaria inacabada e rega de mangueira em riste uma rotunda verdejante, não merece vexame, mas ao pé dos campos de futebol existe um monumento aos combatentes do Ultramar com qualquer coisa de salazarento que mais vale que não perdure. Se os escudos das províncias ultramarinas em Belém já foram à vida, porque não fazer também aqui uma razia heráldica ou mesmo cortar a cabeça e a arma do soldado que os guarda? Fica a sugestão.

Rotunda abaixo esbarramos com um Adónis de dardo em punho, pronto para furar os pneus no parque de estacionamento do Modelo – esse hipermercado a que nenhum elvense, por mais fusões, aquisições e alterações societárias que sofra, lhe chamará jamais “Continente”. Será este um símbolo à virilidade? Ao desporto? Ou uma disfarçada apologia homoerótica? Na dúvida, o melhor é cortar-se o dardo. E a cabeça também.

Quem segue direcção à Boa-Fé vai encontrar ao lado do Ciclo um monumento à minha parente Madre Maria Isabel da Santíssima Trindade, mas como não passa de uma placa comemorativa a decapitação não pode ter lugar. Mas se se seguir para as Fontaínhas, ainda nos deparamos com uma homenagem aos hortelões dessa zona baixa da cidade, representando a escultura um agricultor de enxada em punho e um burro puxando a nora. Por mim ia tudo à vida, porque só um escultor analfabeto faria uma estátua em que o movimento mecânico da nora está em sentido exactamente inverso ao da direcção de circulação do asno. Desse a Mão Criadora vida a este infeliz grupo escultórico, nenhuma água seria retirada do poço por tal tracção animal.

Seguindo depois para a cidade pelas Portas de São Vicente, quem está de vigia sobre o escudo português? Zé de Melo, essa personagem satírica de crítica social, o delator de todas as falhas no concelho, primeiramente utilizado como pseudónimo por José Picão Tello (autor do livro “Arena”). Quanta gente não te quis já decepar, seu chibo de granito? Pois não é tarde nem é cedo, só te deixamos mesmo os pés!

E depois do regalo de ver concretizada tão esperada vingança, podemos subir pelo Largo dos Combatentes até à Rua de São Lourenço. Pois nela há uma fonte com o mesmo nome feita por Valleré e que durante muitos anos não ficou concluída por lhe faltarem as quatro estátuas de figuras mitológicas femininas que a deveriam encimar. Só em 2005 a Câmara Municipal (e bem) as adquiriu e colocou no lugar que lhes era destinado. No entanto, sabemos que a sensibilidade e o gosto vão muitas vezes agarrados ao rumo da história e o que foi belo antes pode agora não sê-lo. Especialmente se atentarmos nos estereótipos de género que estas divindades propagam, na sexualização do corpo que apregoam ou mesmo no apologismo hegemónico da cultura clássica sobre a anterior estética dos povos pré-romanos que habitaram estas regiões, como os celtas ou os túrdulos. Dessa forma, vandalismo e destruição são as únicas acções que me ocorrem sugerir para este grupo. E quanto mais rápido melhor.

Por fim chegamos ao Largo da Misericórdia e damos de caras com um boneco gigante da Playmobil. Depois percebemos que é uma estátua de D. Manuel I. As náuseas são tantas que nos dão vómitos. Deus queira que o vómito só atinga esse amontoado de bronze. Como é possível que o município que teve a sensibilidade para resgatar as estátuas para a fonte de São Lourenço tenha sido o mesmo que encomendou esta aberração, paga ainda por cima com o dinheiro dos munícipes? Só uma enorme falta de estética, gosto, cultura e rigor histórico poderiam justificar tamanha barbárie – o que pelos vistos se verificou no executivo camarário da época. Já sabia que Rondão Almeida não era nenhum esteta, mas existem casos (como este) em que o próprio senso comum e o simples gosto natural bastavam para separar uma obra de arte de um manequim publicitário de um parque de diversões. A esta estátua nada se poupe, descoroem-na, decapitem-na, amputem-na, arrasem-na até não restar nem a peanha de granito. O Senhor D. Manuel I não ficaria de modo algum ofendido com quaisquer ataques a este monstro escultórico. Ofendido está El-Rei com que se mantenha de pé tal disformidade por mais tempo. E depois voltem a colocar a Fonte da Misericórdia no seu sítio original, que era de onde nunca devia ter saído.

P.S.: Quem tiver tempo livre e quiser vaguear pelas freguesias rurais, dou só o apontamento de em Santa Eulália se encontrar um busto do autarca responsável pela encomenda da estátua d’O Venturoso. Para os interessados, parece que se encontra num local muito pouco vigiado. Principalmente de noite.