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Epílogo – o preço e o valor das coisas (Na rua, dia 80)

Tudo parece, a seu ritmo, estar a voltar ao lugar. As pessoas já sorriem mais e voltaram a tomar o gosto de estar com outros.

08 Junho 2020

Tudo parece, a seu ritmo, estar a voltar ao lugar. As pessoas já sorriem mais e voltaram a tomar o gosto de estar com outros. Os cafés que se calaram de medo são novamente inundados por fofocas e notícias, com os clientes habituais da torrada e sumo de laranja. Não parece às ruas que possa ter passado tudo de um susto e o despropósito de não ter ninguém a pisar-lhes a calçada foi um sonho mau do qual despertam devagar com o jeito delicado da luz da manhã a trespassar os lençóis de linho.

O confinamento a que nos vimos obrigados não veio mudar grande coisa, mas para os mais atentos veio ensinar pormenores importantes de que andávamos esquecidos. Veio ensinar as coisas simples, veio ensinar o viver fácil. Veio assaltar-nos as vontades, planos e objetivos para violentamente nos voltar a mostrar que os segredos mais bem guardados da vida são os que vivem nas nervuras dos dedos dos adultos e na ponta da língua das crianças.

Há uns dias no supermercado, reclamava um senhor mais velho para a rapariga simpática da caixa:

-“Vai-me dizer que a nota por ter um rasgão deixa de ser nota? Passou de me dar de comida para ser lixo? Então deixa assim de ser dinheiro e passou a ser papel?”

Durante dias não consegui deixar de o ouvir baixinho ao meu ouvido constantemente a pesar o valor e o preço. Sabemos a história: um não tem nada a ver com o outro. Há tanto de valor numa flor vermelha que nasce no campo perto de minha casa que, só de lhe sentir o cheiro, sei que a sua beleza não tem preço. Mas será que na nossa vida não andam de braço dado, com as pernas sincronizadas no andar, a saltar só nas riscas brancas das passadeiras?

O tempo que passámos em casa com a nossa família no conforto da descoberta interior e dos vícios engraçados que nunca tínhamos reparado uns nos outros, teve muito mais preço que valor. Perderam-se vidas, a segurança escondeu-se na toca e houve quem dedicasse dias das suas horas para dar momentos de conforto a quem nunca tinha conhecido. O bicho ceifou empregos e sustento, aniquilou sonhos que tinham sido estudados e que iam mudar o mundo desses sonhadores. Fez-nos espetadores das más estatísticas a aumentar e autores de muitas delas.

O valor da vida que possa ter tomado nova roupagem na quarentena não justifica o preço do que se perdeu…, mas pode muito bem vir a ser escudo para tragédias futuras. Ainda dentro da ideia das notas perdidas entre o preço e o valor, gosto de pensar que quem tenha apreciado e trabalhado no sorriso dos filhos e que tenha mimado o corpo e a mente nesta altura esteve na realidade a poupar. Guardou todos os momentos e descobertas, as vezes que abraçou a solidão ou que recordou abraços prometidos e juntou-os ao peito. Fez um porquinho de boas sensações, amor e conforto.

Pode ser que este porquinho nos valha nos dias que se seguem. Isto por cá anda estranho. Andamos todos zangados e normalmente com razão. Queremos exigir mais de quem nos governa. Sonhamos destemidos com viver no mundo e não apenas num planeta. Talvez, mais que nunca, seja altura de apostarmos o nosso porquinho nisso e, nunca baixando os braços, recordar que a felicidade mora sempre no que temos à mão e vive da compaixão pela vida.

Não será certamente o tempo e o espaço que tivemos a mais que farão o mundo um lugar melhor. Mas pode ser que nos relembre que o amor está ali, e espreitar e a piscar o olho, como se já soubesse que o temos de apanhar, mais tarde ou mais cedo. Não creio que um fenómeno tão mau possa ser chamado de coincidência bonita para nos encontrarmos mais e melhor. Ainda assim, esta foi (ainda é) uma história comum a todos. Uma fábula do livro da natureza feito para nós, a sua gente. Nesta lenda confusa, dentro do pequeno universo que me pertence, continuo a acreditar que o verdadeiro milagre sempre serão as pessoas. Apaixona-me a plasticina de que são feitos o coração e a invasão galopante dos sonhos. Sei que a possibilidade de travar as batalhas da vida vem com a maravilhosa aventura de crescer. E que, quando o sol se põe nas marés que mudam, há novos dias e oportunidade para sermos mais. E se, por acaso, ficar em casa tenha sido o início de tudo o resto, tanto melhor.

 

Catarina Cambóias

Obrigada ao Linhas por me deixar chegar com palavras à vida das pessoas.

Obrigada aos meus leitores por permitirem que isso acontecesse.

 

Para partilhas, desabafos e tantas outras histórias, deixo-lhe o meu contato:

catarina.camboias@hotmail.com