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E nem tudo o bicho levou (na rua, dia 71)

Ninguém sabia porque ninguém nos avisou, mas quando o bicho veio levou muito mais que aquilo a que tinha autorização.

01 Junho 2020

Ninguém sabia porque ninguém nos avisou, mas quando o bicho veio levou muito mais que aquilo a que tinha autorização. Levou abraços de sextas-feiras entre amigos e levou bolos de aniversário com a família à mesa, escondeu-os fora do alcance da vista e do coração e ficou a rir-se sozinho. Roubou todos os beijos dos apaixonados para ele e atirou-os ao vento. Extorquiu saúde, segurança e conforto a cada um de nós e mesmo passados meses, não me parece que os queira devolver, pelo menos para já, de forma descontraída. Ainda assim, em meio de calamidades e emergências, foi criado uma espécie de altar com coisas a que ele não chega porque, ainda que seja do tamanho do mundo inteiro, é ignorante à força necessária para as alcançar.
Mesmo que insista em ficar, o bicho não consegue mais adiar a urgência de ver quem gostamos e de partilhar (a uns passos de distância) o espaço comum do carinho. Ele de tão grande que se fez, pequeno ficou e agora as esplanadas enchem-se de vizinhos de chinelos no pé e mola no cabelo para o café depois de almoço, gargalhando sobre o que já parece uma doença normal ou uma notícia velha.
Mesmo que insista em ficar, ele não adia estações nem preparativos que se fazem no paredão para o calor que reflete na areia, convidando famílias inteiras a jantar mais tarde. Fomos treinando para sermos mais rápidos que ele e são agora preparadas as praias umas depois das outras, enquanto crianças já erguem novos castelos à hora das gaivotas no extenso areal que conhecem há anos.
Mesmo que insista em ficar, ele não tira a simpatia de uma mesa de convívio, que nos convida a pertencer a pessoas, depois de tantas semanas a pertencer a casas. Fazemos novos amigos e voltamos a conhecer os nossos. Damo-nos autorização para rir com os dentes de novo. Volta-se a regressar de madrugada com o coração a saltar do peito, pensando como é tão melhor a vida quando os nossos olhos estão mais perto dos olhos dos outros e lhes conseguimos ver as cores, inquietações e alegrias.
Mesmo que insista em ficar, os namorados não se cumprimentam mais à janela e vingam-se friamente com cestos de piquenique que decoram campos e jardins. Deliciamo-nos com a simplicidade de um gelado e fechamos os olhos sem medo, atentos ao verão a chegar devagarinho. A cidade já não é fantasma e o trânsito nas rádios volta a demorar mais de cinco segundos a ser atualizado.
O bicho levou muita coisa, eu sei. Mas não levou tudo. É que no meio de tanta desgraça sobre famílias inteiras, superação de tantos profissionais e de tantos setores, ansiedades desmedidas, ganha-pães fechados e as insónias do medo do amanhã, fazemos questão de nos reinventarmos. Ele que entenda de uma vez que até pode ficar, mas que nós surgimos, hirtos, dispostos a experimentar uma vida diferente, mas nunca a perder o jeito de viver.

Catarina Cambóias

 

Para partilhas, desabafos e tantas outras histórias, deixo-lhe o meu contacto: catarina.camboias@hotmail.com