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Contra a pandemia, dizemos sim à Vida?

Ateus e intelectuais em geral propuseram-se a “tirar Deus” e o Catolicismo da esfera pública. Em Portugal, a herança baseada na compreensão cristã católica permitiu uma comunhão humana que uniu a população no combate à pandemia

01 Junho 2020

Nas últimas semanas, em virtude da quarentena originada pela pandemia da covid-19, estive mais atento aos vários canais e programas televisivos. E ouvi num deles – programa de opinião e debate na Sic Notícias - um comentário que me recordou imediatamente o ensaio filosófico do notável poeta açoriano Antero de Quental que li há uns anos e não esqueci. Disse a comentadora algo nesta linha: “Atencão, Portugal é um país católico e isso faz toda a diferença”. Não parece que o tenha dito pela proximidade à religião mas, como se trata de uma pessoa esclarecida, estava claramente a referir-se à percepção que parece ser esmagadora em Portugal de defesa e respeito pela vida humana que tem sido bastante sentida durante a pandemia, e da forma de estar em sociedade que a citação demonstra e que o poeta também analisou, embora considerando em sentido oposto.

Estava a comentadora a referir-se à defesa de cada vida durante a pandemia, como princípio inquestionável e com uma defesa em que se empenhou todas e quaisquer atenções para que nenhuma pessoa fosse deixada para trás, sem diferenças quanto à idade, raça, credo, posição social ou qualquer outra que hoje se considere decisiva e que o Catolicismo advoga. Há pessoas e todas são absolutamente únicas e o país estava ciente da dignidade que todos e todas têm. Notou-se transversalmente essa atenção na nossa sociedade. E se não estou, com isto, a defender um fechamento da economia e da sociedade, reconheço porém que em primeiro plano esteve a salvaguarda da saúde pública com tudo que ela implica, percepção esta que parece prender-se com o valor fundamental atribuído na sociedade portuguesa à vida de cada um; esta situação fez-me lembrar que quando o Catolicismo defende publicamente a Vida humana (também dos animais mas aqui e agora não cabe tratar essa dimensão) é porque ela é inegociável, está de facto a defendê-la totalmente e em todas as circunstâncias e não depende de ideologias, ao contrário do que tantas vezes tem vindo a debate político motivado por agendas cuja preocupação não conhecemos ao certo. De qualquer forma, penso que ficou evidente e novamente vincado, neste tempo de excepção, que a vida é transversal e esmagadoramente defendida e não passa de moda. É transversal pois quando se percebe que ela pode estar efectivamente em risco há, digamos, uma comunhão humana e essa defesa não divide mas une a população. Talvez seja uma lição para quando se desejar voltar a trazer temas de vida e de morte para a praça pública sem que lhe seja dado o devido valor: são os temas centrais da humanidade. E, em Portugal, a herança baseada na compreensão cristã católica permitiu que cada um fosse entendido como o ser essencial e irrepetível que é, um bem - seja aos olhos de Deus, seja aos olhos do outro.

Voltemos ao poeta, estudante da Universidade de Coimbra e influência cultural da Geração de 70. Defende Antero de Quental, que tratou esta questão na sua obra apresentada em 1871 em Lisboa nas Conferências do Casino, de carácter filosófico, digna de análise e atenção que raramente lhe conferem os estudiosos e os Portugueses em geral, que um dos factores decisivos do nosso atraso se deve ao Catolicismo sendo “causa da decadência nacional”. Ora se há muito discordo humildemente das suas argumentacão e conclusão que, por análise histórica, me fazia dissecar que a acção do Catolicismo, a Igreja da Contra-Reforma, constituíu ao longo da Idade Média um relevantíssimo apoio ao estudo, à formação de bibliotecas e ao enquadramento dos cursos universitários. Parece que de forma igualmente apressada os ateus e intelectuais em geral se propuseram a “tirar Deus” e o Catolicismo da esfera pública, da análise social e do coração da humanidade.

Se a actualidade e o futuro nos permitem voltar ao assunto e se tal tendência não foi justamente conseguida, serviu a obra do filósofo para termos hoje um testemunho do que foi o pensamento e, afinal, a crença da sociedade bem-pensante dos fins do século XIX quanto à influência dos valores transmitidos pela Igreja Católica Romana e pelos cristãos protestantes no espaço europeu. Diz Antero de Quental: “Com a Reforma [Protestante] estaríamos hoje talvez à altura dessas nações; estaríamos livres, prósperos, inteligentes, morais... mas Roma teria caído!”. Vem naquele sentido em que vários outros pensadores económicos e filósofos se centraram ao considerarem que os países protestantes do norte, por se terem desligado da Igreja Católica, se ligavam ao progresso, à liberdade e ao enriquecimento enquanto os outros permaneciam “atrasados” ou pelo menos letárgicos. Ora o que em 2020 poderíamos defender perante Antero de Quental é que somos e continuamos a ser inteligentes e morais e que Roma e o Papa deram alma à vivência pelo exemplo desta quarentena que correspondeu à quaresma de 2020 e foram o centro de resistência, fé e esperança da humanidade.

Por oposição, temos tido o exemplo dos países protestantes de que têm sido paradigmática nestes meses a falta de solidariedade europeia dos governantes da Holanda (Países Baixos) no seio da União Europeia. Bem como a opção da Suécia de combater a epidemia sem confinamento social pelo que o número de mortos é bastante elevado em relação ao possível e, diríamos nós, desejável caso a sociedade sueca tivesse adoptado o confinamento, e essa opção não parece causar alarme social ou moral de maior naquela sociedade. Porquê? Provavelmente pela liberdade protestante a que alude Antero, que é também indiferente e projecta no seu pragmatismo que não se defenda cada vida até às últimas consequências como bem único e inadiável. Tem por primordial e prioritário a ideia de economia (recordar «A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo» de Max Weber), enquanto que para os países católicos do sul é impensável ver morrer pessoas em número que poderia ser minimizado (consultar a título de exemplo a encíclica social Rerum Novarum, de Leão XIII) apenas porque se pretende analisar o lucro e as perdas, sem a noção de sociedade que existe para interacção das pessoas. À grande sabedoria os milénios ajudam enquanto que a rapidez habitualmente tende a apagar as velas, a luz. Pelo que, em nosso entendimento, 149 anos passados se infirma a cada dia as teses do grande filósofo português dr. Antero de Quental.

A racionalidade aliada à cultura do espírito são talvez um dos bens mais preciosos que a Europa pode preservar, sem receios nem vanglórias, fruto da sua longa e marcante História que, ao que temos visto, não se perdeu no tempo e por vezes se faz presente no melhor da sua tradição.

Tiago Matias, licenciado em Estudos Europeus

(Faculdade de Letras de Lisboa)