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Opinião

O Reencontro (nem sempre em casa, dia 66)

Devia ser proibido esquecermo-nos daquilo que a natureza nos dá, nos rasgões de felicidade que tão gentilmente cede e que levamos para o resto da vida, às vezes sem o notarmos.

20 Maio 2020

Foi como saudar a um velho amigo de quem gostava muito, mas que não via há anos. No toque da pele senti-lhe as aventuras de outros verões, gargalhadas de outras pessoas e âncoras de outros amores. Era ignorante à falta que me era encontrá-lo, mas ainda assim, recebeu-me com plantas e animais, numa festa de reencontro adiado. Foi com a água pelo umbigo salgado e o horizonte à minha frente que me entreguei ao pôr-do-sol numa praia quase deserta e a água do Mar curou, com carinho, a ferida da ausência aberta há meses.

Vou tendo cada vez mais a sensação de que quanto mais se complicam os dias, mais devo voltar aos princípios de criança, à natureza e ao amor. Quando vamos crescendo, o espontâneo vai correndo perigo de vida e aceitamos, cegamente, viver a partir de uma data de condutas e regras que vão contra o nosso instinto livre e que vão sobrevivendo porque “a vida é mesmo assim” ou porque “vai-se andando”.

Aprendemos a entrar no mar, um pé primeiro e uma perna de cada vez. A fazer caras feias ao frio da água. A não molhar o cabelo porque está arranjado, mas a molhar a cara porque o sal faz bem à pele. Damos por nós mais atentos às 3 toalhas e 2 casais a dormir no areal, que à uma imensidão que reside e espera do outro lado da costa, na força do horizonte. As algas beijam-me agora as coxas e os olhos ardem como que a jurar que têm vida. Um pescador sorri das rochas. Sorrindo de volta, convido-o a participar neste reencontro e deito-me à tona da água a respirar pela barriga.

Quando deixamos de acreditar no poder simples do Mar e nas gargalhadas que são dadas nas pequenas piscinas que ele faz de presente ao final da tarde, deixamos também de acreditar em tantas outras coisas. Deixamos de acreditar nas promessas que foram conquistadas nas dunas por amores de verão que vivem em nós muito depois da estação. Deixamos de acreditar nas páginas de um livro a sal e feliz que vive e morre dentro da mochila da praia. Deixamos de acreditar no sol e no vento, na força com que levam sonhos cumpridos e trazem esperanças novas, ao som de alguém que apanha na viola e canta com os amigos no extenso areal.

Devia ser proibido esquecermo-nos daquilo que a natureza nos dá, nos rasgões de felicidade que tão gentilmente cede e que levamos para o resto da vida, às vezes sem o notarmos. Não acredito em regras e condutas que metam em causa gargalhadas ou lágrimas de emoção. Não acredito na felicidade constante, acho que a vida não se dá a isso. Mas acredito na felicidade plena, exatamente porque acho que é a isso que a vida se dá.  

O Mar faz-me acreditar que sou livre. Faz-me acreditar que aqueles segundos em que me deito na água e levito no ar, sem regras ou guias, são a tal felicidade plena. E eu, nem sempre, mas muitas vezes, vou-me dando o gosto de acreditar nisso também.

Catarina Cambóias

Para partilhas, desabafos e tantas outras histórias, deixo-lhe o meu contacto: catarina.camboias@hotmail.com