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Av(ant)e de Fátima

Fátima está intimamente ligada à minha vida. Descobri o que era Fátima já muito tarde, porque as pontuais visitas que fiz em criança não permitiram que me desse conta do que aí se passava, nem ninguém se deu ao trabalho de mo explicar.

12 Maio 2020

Fátima está intimamente ligada à minha vida. Descobri o que era Fátima já muito tarde, porque as pontuais visitas que fiz em criança não permitiram que me desse conta do que aí se passava, nem ninguém se deu ao trabalho de mo explicar. Só já adolescente, bem mergulhado no acne e nas crises de personalidade, comecei por mero acaso a participar nuns campos de férias católicos em Valada do Ribatejo, de índole marcadamente mariana. Nessas férias ao contrário (=Sairef), além de ter aprendido a rezar o terço – que devia ser a oração predilecta de quem nasceu (e se casou) no dia de Nossa Senhora do Rosário – fui conhecendo a história de Fátima, dos três pastorinhos, das aparições e da mensagem da Mãe do Céu ao mundo.

 

Depois dessas explicações, foi evidentemente com uma atitude muito mais esclarecida que visitei a Cova de Iria (ou “deiria”, como canta o povo), apesar de não me ter ajudado em qualquer tipo de conversão. Porque a conversão é uma expressão irracional, é uma adesão por amor e, não havendo essa predisposição, por mais saber acumulado, o coração continuará endurecido. Os próprios pastorinhos não eram nenhuns teólogos ou exegetas, ao ponto de pensarem que a Rússia cuja conversão Nossa Senhora lhes pedia era uma mulher de má vida. Mas na sua simplicidade, na sua embrutecida meninez do “Vossemecê que me quer?”, eram os videntes de Fátima mais convertidos do que todos os outros homens. Não sabiam muito, mas sabiam o que interessava:  sacrifício e oração pelos pecadores, que eram tantos!

 

A mensagem de Fátima resume-se numa palavra. Conversão. Isso decorei logo nas primeiras vezes que visitei o Santuário. E conversão não só de todos os que andam afastados de Deus, do bem, da vida. Mas também de todos nós, dia-a-dia, porque cada passo errado necessita de uma nova conversão, experiência essa que se actualiza sucessivamente até à nossa morte. O meu coração converteu-se ao visitar Fátima? Não sei. Talvez sim; converteu-se seguramente nas peregrinações que durante dez anos fiz das lezírias ribatejanas às serras oureenses. Chegar a Fátima saído do carro estacionado em frente ao Santuário não é o mesmo que chegar saído de um caminho de cabras, com os pés cheios de bolhas, os lábios gretados, todos os pólenes de Portugal no nariz, um calor inexplicável para o mês de Abril e sem água para aliviar a sede. Aí sim, é-se peregrino. Peregrino verdadeiro, que conta o caminho não pelos passos, mas pelas contas do rosário, não pelos quilómetros percorridos, mas pelos terços rezados.

 

Que palavras tão simples e tão universais são as de Fátima! Só um tolo não as compreenderia, mas só uma alma simples as poria em prática. Quem são essas almas simples, quais os seus rostos? São os do povo português, daquelas mulheres que amarram as suas cadeiras às grades do Santuário com horas e horas de avanço para garantirem primeira plateia na procissão das velas. Dos braços a acenarem com o lencinho branco, das velas, de todo o folclore – porque é um folclore – que as aparições marianas involuntariamente trouxeram. As elites intelectuais troçam destas bizarrias populares. Até eu, não sendo nem elite nem intelectual, não posso negar ver um lado kitsch em todo o panorama fatimista. Mas em retrospectiva, quem precisa mais de conversão? De quem surgem as crises de fé? Dos intelectuais ou dessa velha com o lenço a dizer adeus? Das elites ou dos pobres que pagam promessas com velas em forma de braço?

 

Os corações continuam duros. E as almas a necessitarem de conversão. A Virgem do Rosário alertou-nos dos males que a Rússia espalharia pelo mundo. E não deixa de ser curioso que o herdeiro luso dos males da Rússia surja na actualidade noticiosa em contraposição com Fátima, num debate sobre a realização ou não de dois eventos de adesão massiva: o 13 de Maio e a Festa do Avante.

 

Porquê a insistência do Partido Comunista Português em forçar a realização da sua reunião magna, quando a resposta católica é muito mais mansa? Porque ao contrário de Fátima, não podem os comunistas participar espiritualmente na sua celebração, que desde logo não tem nada de espiritual. Não se podem unir em oração porque não têm a quem rezar. Não podem fechar os olhos e pensar em Lenine embalsamado, porque este nunca os irá socorrer, nem consolar. Ainda que o Santuário tenha alguns fiéis, a maioria, a grande maioria, estará em casa por imposição governamental, que além da competência executiva avocou agora também para si agora competências litúrgicas (para quando a criação de uma Secretaria de Estado do Culto Divino e da Disciplina dos Sacramentos?). Mas essa maioria cristã, que verá por um ecrã a comemoração das aparições de Fátima, une-se em alma à Rainha de Portugal e não saindo de casa pode ainda acender a sua vela e abanar o seu lenço branco e, mais importante que tudo isso, rezar o terço, tal como pediu Nossa Senhora. Já a minoria comunista, confinada nas quatro paredes da sua propriedade privada, a quem ergueria o punho? E mais do que a quem, para quê? Se já em massa se poderia fazer a mesma pergunta a essa comunidade, qual seria o propósito de erguer sozinha o pulso, cantar intervenção, reviver Abril?

 

Durante toda a Quaresma, os católicos confinados não tinham outro consolo do que olharem para a cruz, ajoelharem-se, rezarem e beijarem-na, aliviando Jesus das dores do Calvário. Já os comunistas, se estiverem em Setembro fechados em casa, encontrarão o mesmo conforto beijando a foice e o martelo? Valha-nos, a nós e a todos, Nossa Senhora do Rosário de Fátima.