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Liberdade (em casa, dia 49)

A coisa mais bonita que este bicho veio tirar foi o abraço a quem queremos tanto e, a seguir a isso, a beleza de pertencer fora das habituais quatro paredes.

05 Maio 2020

A coisa mais bonita que este bicho veio tirar foi o abraço a quem queremos tanto e, a seguir a isso, a beleza de pertencer fora das habituais quatro paredes. Não é que não sejamos livres: a liberdade não é só um estado de espaço, é também um estado de espírito. Mas respirar sem tecidos a tapar a boca e poder estar onde queremos estar atravessa-me como um privilégio que nunca tinha reconhecido verdadeiramente. É como aquele livro que um amigo da família deu em certo Natal distante, que ganha o pó dos anos e que, um dia sem querer, acaba por nos arrebatar de verdade. Depois de lermos esse livro, é impossível imaginar uma vida completa antes de ser lido.

Como tantos outros no mundo fora, partiria hoje numa viagem desenhada e desejada há algum tempo, com alguém de quem gosto muito. Cancelada a jornada, fica o sentimento de injustiça e de sonhos adiados. Fica a necessidade de conhecer a outras gentes e terras, de água azul e erva verde que se misturam em danças refletidas no céu. Conversas de cafés escondidos com nomes soantes sobre as segundas-feiras das vidas, que já têm tanto para ensinar. Fica o amor pelo que é dos outros, como a comida, as estradas e a voz, que nos são tão gentilmente emprestadas. Fica a vontade de partilhar isto e tanto mais com quem vivemos as aventuras e com quem fica em casa à espera de ouvir as histórias.

Sinto, mais que nunca, que quero visitar o meu país. Quero ser agora livre dentro das minhas quatro fronteiras e ousar passar as pontes, subir às montanhas, entrar no mar. Quero que me leiam as crónicas das vidas mais fáceis e das mais difíceis também e, enquanto a cerveja em gelo transpira na mesa da esplanada, quero estudar diferentes sóis a queimar a mesma pele ao fim da tarde.

Quem me conhece, sabe o quanto gosto de andar de pé descalço em caminhos desconhecidos. Viajar é pertencer. Pertencer é cumprir. Cumprirmo-nos fora de um número de paredes ou de um número de dias. Dar voz aos costumes e sotaques e ser livre na terra de alguém. Ser livre não só em estado de espaço, mas em estado de espírito, sorrindo quando um senhor a quem perguntamos o caminho nos indica por onde ir, usando os nomes das ruas e contando histórias das pessoas que lá moraram. Dizem-me as gretas na sua mão que os dias na pequena horta atrás da casa amarela têm tanto de cansativo como de bonito. Diz-me o sorriso que gosta de me receber na cidade em que se casaram os pais num dia de primavera. Dizem-me os olhos que a vida antigamente era mais difícil, mas não tão complicada.

Catarina Cambóias

 

Para partilhas, desabafos e tantas outras histórias, deixo-lhe o meu contacto: catarina.camboias@hotmail.com