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Sobre dar e receber (em isolamento, dia 45)

Uma da manhã e hoje nem houve tempo para ser gente. Pousa os óculos com graduação a menos na mesa cansada e reflete olhando para o vazio.

01 Maio 2020

Uma da manhã e hoje nem houve tempo para ser gente. Pousa os óculos com graduação a menos na mesa cansada e reflete olhando para o vazio. Ninguém a ensinou que os tempos iam mudar, que um horário não seriam mais que horas dispersas e que as cadeiras da sala de estar sentiriam saudades de ser pouco usadas, quando mantas jaziam nelas. Que em casa, a casa tivesse pouco de lar.

O bicho veio levar tudo para fora do lugar e tornamo-nos todos alunos. A escolaridade é obrigatória até para docentes doutorados em tempos, outrora, livres. A postura e presença implacável de um professor ilumina as telas de informática dos putos, deitados de cabeça nos cadernos com os fones nos ouvidos. Já ninguém se lembra muito bem para que serviam as gavetas da sua secretária.

 

“- Vens-te deitar?

- Estou só a terminar uma coisa para amanhã.

- Amanhã terminas… Não largaste essa porcaria o dia todo.

- Eu já vou.”

 

Todas as correções se tornavam rapidamente numa avalanche de separadores abertos que lutavam entre si pelo lugar no ecrã. Ao fundo, o murmurinho de um site que abriu sem querer. E o cigarro que arde no cinzeiro sem ter cumprido a sua função.

As notícias dizem que novos tempos nos impelem novas vontades. Mas, na verdade, quando tudo se tornara diferente, a sua vontade continuava a mesma: Ensinar. Transmitir. Permitir. Ousar. Dar a conhecer e, com esse conhecimento, dar a criar.

Os tempos mudam e de uma sala de quadros com restos de giz que cheira de manhã a pão com manteiga, com a menina que entra atrasada a correr de tranças feitas pela mãe, a professora carpe agora devagarinho a falta de audiência, a falta de encanto. A parede que tem em frente não sorri com a gracinha que veio das carteiras lá de trás e parece que ninguém tem respostas para nada. Quantas vezes desejou o silêncio e como se sentiria abençoada de não o ter agora.

Como o miúdo que sonha ser o melhor do mundo no futebol pontapeia a bola desajeitado ao início, também ela vai aprendendo a chutar. Porque há um novo programa para instalar, porque na televisão dizem que os alunos têm de trabalhar, porque o vídeo está sem som, porque alguém não consegue aceder à plataforma, porque a luz foi abaixo já com três ou quatro alunos em quinze minutos de aula. Sobretudo porque existe uma missão e ela é muito clara: tentar dar-lhes as mais potentes armas para enfrentar o mundo e com eles aprender que esta é uma batalha para a vida, mesmo quando a vida se torne estranha.

Duas da manhã e bebe um copo de leite morno antes de dormir. Amanhã a batalha começa cedo. Abre a porta que dá para a cama, deita-se e ajeita o corpo dorido. Vira-se para o lado e diz-lhe, como se ele não estivesse já a dormir:

 

“- Estavas enganado. Não foi ao computador que estive agarrada o dia todo. Foi a eles. O mundo está a mudar e, meu deus, quanto há por aprender. Não os quero largar agora. Não os posso largar agora.”

 

E adormeceu.

 

 

 

A todos os queridos professores que tenho a sorte de ir encontrando pela vida. Esteja eu do lado de cá ou de lá.

 

Um beijinho para a minha professora primária, D. Maria Emília, leitora do que escrevo.

 

Um obrigada especial também à D. Odete, para mim uma professora de letras sem nunca precisar da secretária. Que conte muitos… anos e livros!

 

 

Catarina Cambóias

 

Para partilhas, desabafos e tantas outras histórias, deixo-lhe o meu contacto: catarina.camboias@hotmail.com