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Depois do vírus, de telemóvel no bolso

A pandemia covid-19 causou inúmeras e variadas alterações à vida em sociedade praticamente em todo o mundo e é curioso notar como lidamos com elas e o que implicam nas nossas vidas

27 Abril 2020

A pandemia covid-19 causou inúmeras e variadas alterações à vida em sociedade praticamente em todo o mundo e é curioso notar como lidamos com elas e o que implicam nas nossas vidas com muitas consequências ainda por descobrir, nomeadamente económicas e geopolíticas. Outras mais imediatas obrigam-nos por razões de consciência e saúde a mudar hábitos sociais que num futuro próximo dificilmente voltarão ao banal que eram até aqui: fruto deste confinamento de mais de 1 mês em quarentena, com deslocações internas fortemente condicionadas e longe dos amigos e das famílias, para se proteger os mais idosos nas suas residências. Não é novidade que as famílias alargadas já não residiam na mesma casa-origem da família com as várias gerações presentes em virtude das alterações causadas pela vida moderna, porém, até agora era relativamente fácil o contacto com os parentes e as deslocações em férias ou épocas festivas à região e aldeia de origem, como acontece em Portugal - principalmente na Páscoa, que este ano não pôde ser vivida em comunidade. Esta vivência também varia conforme se resida em ambiente urbano ou rural.

Esta pandemia, arrebatadora neste século tecnológico, chegou repentina e brutalmente às sociedades ocidentais e a forma como foi difundida e partilhada tem muito a ver, como é evidente, com as características da época em que vivemos, globalizada, tecnológica e virtual, e disso fez eco para bem e para mal. Este mundo globalizado, que foi iniciado pelas actividades levadas a cabo com os Descobrimentos e a expansão portuguesa no século XV, ganhou novos contornos e tornou-se plena neste século XXI com o modus vivendi baseado na interacção em rede (internet), no contexto das denominadas redes sociais. Ora esta realidade que abrange todas as dimensões da vida em sociedade teve consequências específicas na percepção da própria pandemia, nos avisos da O.M.S. e da D.G.S. e nos comportamentos que dela decorrem. Assim, se vivermos em rede nos possibilitou receber informações em directo à distância de um clique vindas de todas as partes do mundo - facto que nunca havia sido possível nas pandemias que assolaram a Europa em séculos anteriores -, manteve-nos ligados uns aos outros ainda que não pessoalmente e permitiu que não nos sentíssemos isolados (não cabe aqui analisar o sentido mental de isolamento virtual e social) e que até as necessidades de alimentação e compras fossem mais facilmente acedidas via online; essa mesma pandemia vivida através das redes trouxe o medo por contraste à crença no progresso ilimitado cultivado até então. Esta percepção não contraria em nada o cientista Garcia de Orta quando afirma que “o que hoje não sabemos, amanhã saberemos”, apenas clarifica, em nosso entendimento, a interdependência humana que é questão central e quando bem entendida carece de raciocínio científico que a todos e a todas as ciências beneficia e, mesmo a experimentação, não se faz sem a centralidade da pessoa, seja do cientista seja do destinatário. Muitas vezes surgiu o pânico face ao que ia chegando de outros países através da comunicação social, em especial os canais de televisão, e o caso italiano foi disso paradigma, pelas imagens mostradas dos doentes nos hospitais e narrativas várias. O que parece permitir às novas gerações e aos que, dado o ritmo acelerado de vida das últimas décadas, não tenham tido tempo para reflectir e compreender de forma mais transparente que o mundo globalizado é também dependente, porque interligado, e a ideia de uma tempestade no lugar X ter consequências que afectam Y é real e tornou-se concreta. Com as viagens e a interdependência económica actual o coronavírus não conheceu fronteiras e rapidamente se espalhou pelos vários países, mesmo em zonas distantes do globo, com uma rapidez incrível e aparentemente sem possibilidade de ser detectado.

O tempo de pandemia que estamos a viver recorda-nos, para já, que todos os processos (tal como o teletrabalho que deste emana) têm as suas facilidades e custos, benefícios e malefícios, e cabe-nos lidar. A história da Humanidade e da Europa em especial ensina-nos, pese embora as novas realidades, que debelámos várias epidemias sem que elas limitassem definitivamente as sociedades.

Seria mais fácil lidar, por exemplo, com a Gripe espanhola no ano de 1918 e seguintes com grande mortalidade e havendo cerca de 500 milhões de infectados no período pós-Primeira Grande Guerra, em que a alimentação era menos variada do que é hoje, porque as pessoas saíam menos dos seus locais, as viagens menos comuns e os negócios não tinham escala planetária? Se a priori alguém tenderia a dizer que sim, depois percebe-se que nem por isso. Que agora há possibilidades promissoras. A ciência e a investigação partilhavam no passado menos informação, havia menos respostas e eram mais circunscritas à área em que se habitava conseguindo assim mais dificilmente conter os contágios. Hoje há 2.897.203 casos no mundo por covid-19 (fonte: Universidade Johns Hopkins, actualizado a 26 de Abril de 2020).

Se a informação maciça é assustadora e esmaga fazendo crer que a presente epidemia é a mais terrível, também é uma eficaz ferramenta facilitadora de conhecimento e os números colocam em evidência a realidade, exigindo análise. Portanto faz todo o sentido ter esperança firmada na razão em como vamos ultrapassar as limitações que a pandemia nos colocou e coloca, controlando a ansiedade e correria típicas da sociedade contemporânea que cultiva o individualismo e usando da resiliência e inovação que desenvolvemos, com recurso aos cuidados de saúde e higiene. Se todo este processo tem sido relativamente mais simples de enfrentar graças à internet e sua inegável mais-valia de comunicação bem como ao mundo globalizado, é paradoxal e interessante reparar que muitas manifestações sociais sejam de solidariedade próxima (como as máscaras artesanais feitas em casa para o vizinho mais necessitado, etc), haja o desejo manifestado nas conversas de Whatsapp da presença física há muito secundarizada e esteja a permitir neste momento pôr em perspectiva escolhas de vida e maneiras de estar que nem sempre parecem satisfazer as necessidades da Humanidade, de diálogo e encontro sempre que possível, e a ligação com a natureza que fazem parte da pessoa como ser social que é.

Haja saúde!

Tiago Matias, licenciado em Estudos Europeus

(Faculdade de Letras de Lisboa)