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O coronavírus acelerou a transição energética?

A actual pandemia pode acelerar, ainda que de forma indirecta, a transição de fontes de energia fóssil para outras formas de energia

17 Abril 2020

No meu último artigo apresentei as minhas críticas às ideias que têm vindo a surgir sobre as consequências positivas dos constrangimentos à liberdade de circulação e ao normal funcionamento das fábricas e da economia produtiva, provocadas pelo Covid-19. Nesse artigo expus a minha opinião de como sou contra uma filosofia em que se impinja a paragem da nossa economia e a diminuição de qualidade de vida como forma e solução de evitar a crise climática.
Hoje, caro leitor, venho dizer que a actual pandemia pode efetivamente acelerar, ainda que de forma indirecta, a transição de fontes de energia fóssil (carvão, petróleo e gás natural) para outras formas de energia, como a solar, a eólica ou a nuclear, entre outras, sem no entanto contrariar o que disse no artigo anterior. Acredito que o leitor já tenha reparado que o preço dos combustíveis (gasóleo e gasolina) desceu consideravelmente. Esta descida foi provocada pela queda abrupta no preço do barril de petróleo. Note-se que o barril estava em valores na ordem dos 50 $USD +(dólares norte-americanos) e caiu para valores na casa dos 20 $USD.

Esta queda deve-se a duas razões:
A primeira prende-se com o paralisar das economias mundiais em particular dos maiores emissores de CO2 como a República Popular da China, os Estados Unidos da América e a União Europeia. A forçada paragem destas (e de outras) economias, bem como a diminuição do tráfego aéreo diminuiu a procura por combustíveis, que têm origem fóssil, causando a diminuição drástica nos preços. É a lei básica dos mercados, quando a procura é menor o preço tende a descer, e vice-versa. A segunda razão, que talvez passe mais despercebida, é a guerra comercial feita entre a Arábia Saudita e a Rússia. Tendo tido como causa, o próprio covid-19 ou uma outra razão (mais politica e estratégica), a Arábia Saudita aumentou a sua produção de petróleo, inundando os já saturados mercados, fazendo dessa forma cair ainda mais o seu preço - via aumento da oferta, face a uma procura já diminuta.
À data de edição deste artigo todos os países produtores de petróleo já tinham acordado uma redução no número de barris produzidos diariamente. Valentina Kretzschmar da Wood Mackenzi fez notar que esta drástica redução do preço do barril torna 75% dos projectos de investimento em petróleo para 2020, completamente inviáveis. Acresce a isso que este sector está a ser testado até ao limite podendo não recuperar inteiramente. A inviabilidade dos projectos e o já existente rótulo negativo associado a combustíveis fósseis, a  transição energética poderá estar para breve.
As energias renováveis também se encontram numa posição mais competitiva, sendo que o seu custo diminuiu e foram feitos avanços tecnológicos tornando-as mais eficientes e economicamente viáveis.
Em forma de conclusão, não posso deixar de salientar que, se o que aqui expliquei vier a acontecer, a transição energética deveu-se a três factores (nenhuma delas a destruição da economia): a primeira foi uma muito gradual mudança de mentalidades que chamou a atenção para as vantagens ambientais das energias com baixas emissões de carbono em relação às energias fósseis; a segunda foi o existir de um constante avanço tecnológico que permitiu que estas energias (por enquanto) alternativas fossem economicamente mais viáveis, desde a sua construção até à capacidade de produção energética; e a terceira é este momento chave nos mercados internacionais que, ao que tudo indica, poderá ter tornado as energias fósseis demasiado arriscadas para se nelas investir e consequentemente, obsoletas. Esta transição pode ter neste terceiro ponto, o seu momento de viragem, mas sem os dois passos anteriores, que requereram muito tempo e financiamento, ela nunca iria acontecer.

Investigador em biologia evolutiva na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa