Coronavírus Covid-19
Linhas de Elvas
Elióptica 2020 - Proteja os olhos
Bricoelvas
Elióptica 2020 - Loja Online
Camelo Maio 2020
El Faro - Campanha de Verão
Jocriauto 012020
Nabeirauto - Crossland X
Sanielvas 358x90 - Nov17
Jocriauto 012020
Nabeirauto - Crossland X

Anda à janela (em isolamento, dia 17)

Sete da tarde. Já vou sentindo que o relógio anda agora para trás e que o retrocesso das horas me traz más notícias do meu país. Vou sentindo que há uma humidade mais pesada no ar e que a humanidade que enchia as casas é agora substituída por esperas, angústias e desencontros.

11 Abril 2020

Sete da tarde. Já vou sentindo que o relógio anda agora para trás e que o retrocesso das horas me traz más notícias do meu país. Vou sentindo que há uma humidade mais pesada no ar e que a humanidade que enchia as casas é agora substituída por esperas, angústias e desencontros. Vou à janela mais vezes por dia e mesmo o frio não me espanta para dentro.

Dou mais importância ao que bebo e, de copo cheio, fico a olhar pela janela pais a descobrirem filhos em casa. Vejo o senhor do prédio azul que já voltou do supermercado e que se apruma a estacionar o carro, para que esteja assim tão direitinho durante os muitos dias em que ficará parado. O pintor regressa do trabalho de bicicleta e só com uma mão no guiador… ela já sabe o caminho para casa e ele entrega-se ao cansaço. A rapariguinha mais nova foi correr de calções e nem quando a respiração a parece ultrapassar consegue parar para se recompor… disse-lhe a mãe quando saiu que antes do sol se pôr a queria em casa porque o mal do mundo acontece mais à noite.

De uma janela sai Caetano bem alto e eu agradeço ao vizinho num sorriso tímido, sem me apresentar. Vir à janela já é conhecermo-nos e querermo-nos bem. É mostrar a quem queira ver que sobrevivemos às garras da temporada que teima em não passar e que um espaço confinado não nos limita a nós.

Volto-me para encher o copo novamente. Da rádio sumida, os números saem mais uma vez depois das tantas vezes e já ninguém fala em pessoas. Somos resumidos a casos ou a dados estatísticos e os jornais repetem títulos. As notícias não o são e as vozes não dão alento. Parece que está tudo baralhado e tremido: as horas, os números e as vozes.

Volto à janela. Chamo a minha irmã.

 

- Chamaste-me?

- Chamei. Achas que o nosso vizinho que ouve Caetano gosta mais de verão ou de inverno?

- Acho que de outono, porque é um homem de vinho tinto.

- Porque dizes isso?

- Vi a mulher dele chegar a casa outro dia. Muito bonita. Ruiva. Trazia alguns legumes no saco e duas garrafas de tinto na mão.

- Sorria?

- Nem por isso.

- Mas achas que são felizes?

- Acho. Muito. Afinal, são eles que ouvem a música que te faz cantarolar, conformada, no fim de tarde à janela.

 

É urgente dar nomes às coisas e vida às pessoas. A esperança só é autêntica quando partilhada com a realidade e essa…bom… é o que é. Do que vemos, do que ouvimos, do que sentimos. Imaginar uma vida para os outros não é mais do que lhes dar esse dom. Numa altura em que até as horas já perderam o nome, não deixemos as vontades perderem as amarras.

 

Catarina Cambóias

 

Para partilhas, desabafos e tantas outras histórias, deixo-lhe o meu contacto: catarina.camboias@hotmail.com