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A grandiosa epopeia de ir ao supermercado (em isolamento, dia 10)

Chaves, lista, sacos. Não quero levar nada a mais que o necessário. Faço uma dança que apalpa os bolsos e revista com olhos atentos a casa à minha volta. Está tudo? Está. Os sapatos? Estão lá fora, do outro dia.

07 Abril 2020

Chaves, lista, sacos. Não quero levar nada a mais que o necessário. Faço uma dança que apalpa os bolsos e revista com olhos atentos a casa à minha volta. Está tudo? Está. Os sapatos? Estão lá fora, do outro dia. Saio. Quando chego ao elevador, lembro-me do dinheiro e volto atrás.

Gosto de ir ao supermercado para comprar ingredientes de receitas novas que me aparecem sem querer. Gosto de ver o que cada um leva nos carrinhos, admito. Sempre achei um jogo divertido deduzir modos e filosofias de vida pela escolha das bolachas, fazer uma sondagem e descobrir vencedor entre as duas grandes marcas de cerveja e inspirar-me espreitando as especiarias que utilizam mais lá em casa. Mas, ultimamente, ir às compras para a casa deixa-me triste e tira-me vida. Depois de desistir de ir às grandes superfícies, tentei um supermercado bem mais pequeno perto de minha casa. Com muita pena minha, após duas tentativas vigorosas, nem assim consigo sacudir esta sensação peganhosa de desconfiança que vivemos e a estranheza de agarrar nas coisas já muito decidida, quase sem lhes poder tocar.

Espera-me uma fila de quatro pessoas à porta. Algum silêncio por segundos, seguido de palavras feias pela espera, ou pela meteorologia, ou pela vida. Lá dentro, há de tudo, mas só um pouco. O rapaz leva um ralhete da gerente porque está a misturar os ovos S com os L e os M com os de marca branca e isso só traz mais problemas, numa altura em que já há tantos. Está muito cansado, vejo-lhe nos olhos. Gostava de lhe poder mentir, mas sei e sinto que o turno do acaba-repõe está longe de ser fácil e ainda mais longe de ter fim. Estamos a falar de muitos ovos. E de muitos problemas. Mesmo muitos. Dúzias por cima umas das outras, sem desconto para ninguém ou data de validade apertada.

Cheira a vinagre e os pimentos frescos acabam de ser colocados à mercê do cliente. As latas de atum, agora desarrumadas e baralhadas por marcas, revelam pela sua disposição a imensa confusão que vai na cabeça dos portugueses. Arroz já só aromatizado e queijos só às metades.

A senhora maldisposta encosta-se ao empilhado de caixas de cebola, vai riscando a lista e canta para nos enganar. A música é brasileira e eu não conheço nem o autor nem esta nova intérprete, mas sei que o seu pensamento está longe de qualquer cantiga de rádio e que agora recorda com saudosismo barulhento quando podia escolher um molho de brócolos com todo o tempo do mundo.

Levam-se vários sacos de carne de várias carnes para não enjoar o frango e os alhos já se acabaram, ainda que seja só hora de almoço. Talvez o rapaz, depois dos ovos, reponha os alhos. Não me atrevo a perguntar-lhe.

As promoções dos vinhos desapareceram e um senhor briga com a mulher ao telefone porque não há lixívia. Ela não acredita nele. Ele manda-a falar mais baixo. Ela grita mais alto e eu tenho muita vontade de o defender porque sei que está há mais de 15 minutos no pequeno corredor dos detergentes e a verdade é que a lixívia esgotou mesmo.

Na caixa, a rapariga simpática ajuda-me. Sou só uma e levo muita fruta. Agradeço-lhe, verdadeiramente. Sorri-me de volta. Quando saio, seguro em esforço a porta com o pé e deixo entrar o próximo da fila.

Chego a casa. Descalço-me. Dispo-me. Lavo as mãos. Respiro. Respiro outra vez. Tenho saudades de ir só ali buscar hortelã porque ficava bem na sopa. De levar uns iogurtes de um sabor esquisito só para provar. Nem me lembrei de trazer chocolate. É esta imensa angústia de ainda não poder sair lá fora e de passar a tarde sem pensar: “Que estranha raça é esta quando o medo nos domina as cabeças”.

 

 

A todos os que nos repõe os frigoríficos e se encarregam de nos encher a despensa para que fiquemos em segurança… Obrigada!

 

 

Catarina Cambóias

 

Para partilhas, desabafos e tantas outras histórias, deixo-lhe o meu contacto: catarina.camboias@hotmail.com