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Entrámos na Semana Santa

O percurso quaresmal já leva muitos dias em cima e chega agora ao fim, mas no seu princípio – como acontece todos os anos – revesti-me de um espírito ascético que me fez crer ser possível renunciar a todas as coisas do mundo naquele imediato momento.

06 Abril 2020

O percurso quaresmal já leva muitos dias em cima e chega agora ao fim, mas no seu princípio – como acontece todos os anos – revesti-me de um espírito ascético que me fez crer ser possível renunciar a todas as coisas do mundo naquele imediato momento. Nos propósitos quaresmais fui ingenuamente iludido por demasiada consideração própria: “Renunciar ao queijo? Corta-se mas é com o pão durante quarenta dias!” ou “Rezar o terço diariamente? O melhor é ser um rosário, que não custa nada!”. Escusado será dizer que, se nem os pequenos compromissos foram cumpridos à risca, quanto mais as promessas de dificuldade cartusiana… Inexplicavelmente é sempre assim: mais olhos que barriga, ou melhor, mais olhos que jejum, nas renúncias da Quaresma. Dera-me a mim fixar uma meta – por pequena que fosse – e cumpri-la de vez!
Esta recta final da Quaresma foi única de se viver, sem missas presenciais, confissões, comunhões ou procissões, tão presentes que costumam estar neste tempo. Se a COVID-19 tiver um inimigo figadal, diria que é a religião. Talvez o que mais me custe é não poder passar a Páscoa em Elvas, pelas restrições de circulação inter-concelhias (maldita hora em que mudei a residência fiscal para Lisboa), nem aí assistir ao Tríduo Pascal como era hábito nos outros anos. Porque de todas as tradições elvenses, as mais bonitas e tocantes são mesmo as cerimónias da Semana Santa. Essa etapa final, antes da glória da Ressurreição de Jesus, tem tanto de enriquecedor como de comovente.
Este ano não estarei Quinta-Feira Santa em Elvas. Não assistirei à missa vespertina da ceia do Senhor, o chamado “lava-pés”, na Igreja de Nossa Senhora da Assunção, nossa antiga Sé. Nos últimos anos fazia sempre de apóstolo neste ritual tão comovente. A primeira vez que o sacerdote me lavou e beijou o pé direito quase que chorei. Que gesto com tanto significado e tão emotivo! Esta missa, como todas as outras cerimónias da nossa Semana Santa, é de uma rara beleza. A antiga Sé só já o não é de nome, porque em tudo mais está à frente de muitas das mais recentes sedes episcopais portuguesas. Seja pelos paramentos e as alfaias sagradas que são usados – tudo de uma riqueza que só não é maior porque museus e outras dioceses ficaram com as melhores peças após a extinção do bispado –, seja pelo maravilhoso grande órgão Oldovino, que, mais do que o coro, é o verdadeiro protagonista musical de toda a liturgia.
A seguir à missa faz-se uma pequena procissão dentro das naves da Sé, na qual é dado a adorar o Santíssimo Sacramento. Depois expõe-se o mesmo Corpo de Cristo num sacrário sobre o altar e aí permanece para veneração dos fiéis até passar a Procissão do Mandato, à noite. Pelas nove horas, homens elvenses das mais variadas idades e condições saem da Igreja da Misericórdia de opas pretas e lanternas em duas filas, encabeçadas pela cruz de Cristo e entremeadas por estandartes de temas religiosos, aos quais se seguem a Mesa da Confraria da Santa Casa, o sacerdote com o Santíssimo, a banda tocando marchas fúnebres e a assustadora matraca, com o seu inconfundível som aterrador. Todos em procissão, têm como objectivo levar o mandato de Nosso Senhor às ruas da cidade – “Mandatum novum do vobis” (Dou-vos um mandamento novo) –, percorrendo a maioria das seguintes igrejas: Nossa Senhora das Dores; São Martinho; Santa Maria de Alcáçovas; Domínicas; Nossa Senhora da Assunção (Sé); Ordem Terceira de São Francisco; Convento de Santa Clara; São Pedro; São Domingos; São Lourenço; Salvador e de volta à Igreja da Misericórdia.
Esta procissão, única no seu género, mistura a verdadeira devoção popular com a muito própria religiosidade quase anticlerical do homem alentejano, avesso à maioria das cerimónias litúrgicas. Tanto assim é, que o número de participantes nas três procissões organizadas pela Santa Casa da Misericórdia nos dias de Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa e Domingo de Páscoa vai diminuindo drasticamente com o avançar da semana. E ao carácter solene e funesto dos eventos, e ao semblante carregado de todos os irmãos quando passam com as lanternas diante do povo que muito sério observa, contrasta a expansividade durante as pausas em que todas as lanternas ficam à porta de algumas igrejas e apenas entram o sacerdote e a Mesa. Mal pára a procissão dois segundos, ouve-se logo: “Nunó, na’queresuma amêndoa? Vá, uma amendoazinha!” e “Ouve lá, atão na’trouxestes a ginjinha? – Atão na’houvera de trazere, ‘tá aqui no bolso!” e ainda “Parece impossívele, outro ano que na’ s’entra no Salvador! E diz-se est’homem padre, sim senhore!”.
Acabada a procissão, recolhe-se logo a casa para aproveitar os poucos minutos antes do fim do dia numa lauta ceia que só verá repetição do mesmo calibre sábado após a Vigília.
Não estarei igualmente em Elvas na Sexta-Feira Santa, em que o dia começava cedo com as Laudes cantadas na Sé (tenho a teoria de que o dia da Paixão do Senhor deve ser ocupado com o maior número de compromissos possível, caso contrário a ociosidade tornaria o jejum insuportável). Este é um dia muito impactante, porque é um dia sem missa. Um dia – o único dia – em que se venera, não Jesus Sacramentado, mas sim a cruz, o madeiro onde foi crucificado. A cruz é a protagonista e vale a pena por isso dedicarmos tempo a ler o maravilhoso património poético que ao longo dos séculos se foi desenvolvendo em redor desta temática singular, da qual destaco o hino do séc. VI escrito por São Venâncio Fortunato “Pange lingua gloriosi proelium certaminis”, cujas segunda e terceira estrofes são de uma beleza singular, ainda que aqui apresentadas na algo livre tradução litúrgica portuguesa: 

Como Adão no Paraíso
Comeu o vedado pomo,
Assim o Criador do mundo
Decretou, compadecido,
Que uma árvore nos desse
O que na outra perdemos. 

Deus quis vencer o inimigo
Com as suas próprias armas;
A Sabedoria aceitou
O tremendo desafio,
E onde nascera a morte
Brotou a fonte da vida. 

Às três em ponto a Sé está cheia. Os ministros sagrados entram com paramentos vermelhos e prostram-se no chão, em oração. Os fiéis estão todos de joelhos. Ninguém fala e só se ouvem as badaladas dos sinos. Passados uns momentos todos se levantam e o sacerdote presidente, já no altar, lê secamente uma oração, sem qualquer tipo de saudação inicial nem “Em nome do Pai…” ou o vulgar “oremos”. É como se começasse uma conversa a meio, sem introduções. Da mesma forma, no fim da celebração conclui sem despedida, bênção ou “Ide em paz…”. O povo sai taciturno, em silêncio. Deus está morto.
Em casa finge-se comer qualquer coisa para enganar a fome (que pode ser muita) antes de se voltar à Igreja da Misericórdia para a Procissão do Enterro do Senhor. Os homens de opas pretas e lanternas voltam a sair em fila em direcção à Sé, mas desta vez sem passo processional. A procissão só começará lá em cima, onde estão os andores do Senhor Morto, Nossa Senhora das Dores e São João Evangelista, o único apóstolo que esteve com Jesus até ao fim. A procissão monta-se dentro da Sé, ordenam-se os grupos e reacendem-se as lanternas que, entretanto, se apagaram com o vento. O turíbulo já fumega com o incenso e a banda começa as marchas. Sai a procissão e a matraca volta a ouvir-se. O seu som hoje é mais sarcástico, parece a própria Morte a rir-se do Crucificado.
O percurso é também mais pequeno: Sé, Praça da República, Rua Isabel Maria Picão, Rua de São Francisco, Faceira da Cisterna, Rua António Tomás Pires, Largo da Misericórdia, Rua da Cadeia, Rua da Carreira, Praça de República de novo e regresso à Sé. Aí é digno de se ver o espectáculo do enterro propriamente dito. O corpo do Senhor Morto, envolto em mortalhas, é levado no seu caixão até ao sarcófago de mármore do altar-mor de Nossa Senhora da Assunção. Aí é descido por cordas até meio da tumba e içado três vezes para fora até ser derradeiramente depositado no fundo. Então uma grande tampa é fechada com toda a força e uma pancada seca e estridente ouve-se por todo o templo. Os fiéis estão mudos. Deus está morto e enterrado.
Depois de uma experiência tão impactante, não se volta a casa de ânimo leve. Há uma dose de culpa em todas as consciências, como se cada uma das lascas do Santo Lenho fosse lá directamente colocada pelos pecados individuais dos homens.
No sábado de manhã voltam a cantar-se as Laudes na Sé. Como refere uma antiga homilia do séc. IV lida no Ofício de Leitura deste dia, “Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão.”. O Senhor, adormecido segundo a carne, vai à procura de Adão na mansão dos mortos para o libertar desse cativeiro e com ele estabelece um diálogo que é um arroubo de originalidade: “[…] Vê no meu dorso os açoites que suportei, para te livrar do peso dos teus pecados. Vê as minhas mãos fortemente cravadas à árvore da cruz, por ti, que outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso. Adormeci na cruz, e a lança penetrou no meu lado, por ti, que adormeceste no paraíso e formaste Eva do teu lado. O meu lado curou a dor do teu lado. O meu sono despertou-te do sono da morte. A minha lança susteve a lança que estava dirigida contra ti. […]”.
Como se ocupa este dia tão estranho é outra das grandes questões que tenho a par da Sexta-Feira Santa, mas regra geral faz bom tempo e existe uma excursão ou um roteiro histórico-militar pela cidade que preenche toda a manhã. Se não houver, autores como Vitorino de Almada, Eurico Gama ou António Tomás Pires dão óptimos guias turísticos.
Finalmente, também não estarei em Elvas nessa noite para a celebração magna de todo o ano litúrgico: a Vigília Pascal. O lume novo é aceso no átrio da Sé, não sem grandes dificuldades pela ventania que costuma fazer nessa noite. A igreja está às escuras, mas vela a vela a chama espalha-se rapidamente até aos pés do altar. “A luz de Cristo” ouve-se cantar e os fiéis levantam os luzeiros à procissão de entrada. Então tudo se acende, tudo é luz, definitivamente as trevas não vencem a vida! O sacerdote dirige-se ao ambão e começa a cantar uma das páginas mais bonitas da literatura mundial, o “Exsultet” ou o Precónio Pascal: 

Exulte de alegria a multidão dos Anjos,
exultem as assembleias celestes,
ressoem hinos de glória,
para anunciar o triunfo de tão grande Rei.
[…]

Oh necessário pecado de Adão,
que foi destruído pela morte de Cristo!
Oh ditosa culpa,
que nos mereceu tão grande Redentor!
Oh noite bendita
Única a ter conhecimento do tempo e da hora
Em que Cristo ressuscitou do sepulcro!
[…] 

Chegando-se ao canto do Glória, calado durante toda a Quaresma, a alegria é geral com o som das campanas. Quando era mais novo tinha a tarefa de subir pelas incontáveis escadas da Sé até à torre para badalar, ainda ofegante e sem recuperar o fôlego, os gigantes sinos com a maior força possível. Apesar de nada disso se repetir este ano, as memórias estão vivas o suficiente para que se mantenham presentes à medida que estes dias tão especiais vão passando. E ainda que as cerimónias sejam vistas pelo ecrã de um televisor, tenho a certeza de que ao soar o Glória nessa “noite ditosa”, como canta o Precónio, estarei com o zumbido metálico na cabeça de tanto ter badalado os sinos. Deus ressuscitou. Aleluia, Aleluia.