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A propósito de coisa nenhuma

Na sua obra mais conhecida – “Caminho” – São Josemaria Escrivá dá o seguinte conselho para fazer oração: «Não sabes orar? – Põe-te na presença de Deus, e logo que comeces a dizer: “Senhor, não sei fazer oração!...”, podes ter a certeza de que começaste a fazê-la» (90).

27 Março 2020

Na sua obra mais conhecida – “Caminho” – São Josemaria Escrivá dá o seguinte conselho para fazer oração: «Não sabes orar? – Põe-te na presença de Deus, e logo que comeces a dizer: “Senhor, não sei fazer oração!...”, podes ter a certeza de que começaste a fazê-la» (90). Este método, a que recorro tantas vezes, de começar a pensar em várias coisas na presença de Deus – ainda que de importância questionável, tais como qual é a melhor mostarda para o rosbife (Colman’s), como é que introduzo mais livros em casa sem a minha mulher se aperceber ou de que cor deve ficar o passpartout nas gravuras de Bartolozzi a emoldurar – que logo me conduzem a um diálogo fluente com Ele, penso também poder aplicar-se à escrita.
De facto, não tenho nada verdadeiramente inspirador para partilhar, mas pelo método do Santo essa ausência temporária da Musa (não sei se Calíope, Clio ou Erato) não impede que seja prosa aquilo que escrevo sobre nada ter sobre que escrever. Já se a escrita é de qualidade, isso é outra conversa.
Assim, fui pensando nas coisas que fiz nestes dias enclausurado, quase todas prosaicas, e lembrei-me que uma delas foi esvaziar a adega. O esvaziamento não foi literal nem de uma assentada e quero desde já apagar a imagem com que o leitor ficou de mim como figurino d’Os Bêbados de Malhoa. Foi pelo contrário bastante ordeiro e limitou-se a fazer subir à mesa aqueles velhos tintos empoeirados que dormiam nas prateleiras há mais anos do que eu na cama. 1982, 1986, 1989, 1992, 1996, 1998, havia quase todos os anos, a maioria vinhos espanhóis, Rioja ou Ribera del Duero, mas também alguns franceses e até uns curiosos Pinot Gris luxemburgueses de 2008 (estes brancos) que, para grande surpresa, seriam um desperdício se fossem usados para temperar a salada.
Abrir um vinho destes, de 20 ou 30 anos impõe respeito, mas sobretudo expectativa porque não sabemos o que iremos encontrar. Deixa também frustração nos vinhos que pareciam bons e afinal estavam mais para o meu filho usar nas suas pinturas de parede tipo Pollock. No entanto todos devem ser tratados como um tio-avô com problemas de memória: não exigir nem esperar demasiado, mas aproveitar os momentos agradáveis que possam surgir. No fundo é como a vida, cheia de multas da EMEL, assembleias de condóminos, défice de manteiga à temperatura ambiente (manteiga para torradas acabada de sair do frigorífico deveria ser proibida por lei) e quarentenas, que no meio tem, por instantes, alegrias fortuitas, como o nascimento de um filho ou a primeira dentada num brigadeiro cuja rácio leite condensado/chocolate beneficia sobejamente o primeiro ingrediente.
Outra coisa que fiz foi recuperar a leitura de alguns livros deixados a meio. Tenho o péssimo hábito de ler uma dúzia de obras ao mesmo tempo, dos mais variados géneros, que na semana passada iam desde a biografia do Beato Carlos de Áustria (D. Teodoro de Faria) às aventuras de Khadji-Murat (Tolstoi), passando pela maravilhosa compilação sobre a Idade Média coordenada por Umberto Eco, as Terras do Demo (Aquilino Ribeiro), a vida de Rossini (Richard Osborne) e as Memórias do Conde de Mafra. Tal é a falta de disciplina neste campo que invariavelmente todos os livros acabam na prateleira com um marcador a meio da obra (tinha tantos livros com papéis a marcar páginas em casa que um dia uma visita perguntou se os andava a inventariar para leilão). Assim, recomecei ordenadamente, um livro de cada vez, a ler todas essas histórias deixadas a meio. A minha sugestão é começar pelo Tolstoi, que é sempre mais digestivo. Depois todos os outros virão naturalmente.
Também aproveitei a oportunidade para aprender latim no Facebook com Frederico Lourenço. Sei que parece inacreditável, mas o grande classicista oferece aulas online com um método simplicíssimo que me fez avançar muito mais depressa do que apenas pela sua gramática, lançada há um ano. Aprender latim é um daqueles prazeres de difícil conquista, como um banho gelado ou ouvir Wagner, mas depois de alguma familiaridade transportam-nos ao etéreo. E, dada a massiva adesão de alunos virtuais – muito motivada pelo marasmo corrente –, quem sabe se este homem não foi responsável por uma nova geração de latinistas amadores. Pode ser que com isto se volte ao ensino escolar das línguas clássicas, barbaramente abandonado com o advento republicano por simples preconceito anticlerical e tão fundamental para a base do nosso conhecimento. Não espero que façam o raciocínio sozinhos (duvido da aptidão), mas até quando o Ministério da Educação deixará de valorizar estas e outras humanidades no currículo dos estudantes portugueses? De nada servirão programas de cidadanias e igualdades se ao mesmo tempo se rejeitarem as línguas clássicas, a história e a filosofia, que nos ajudam a pensar, a saber de onde viemos e para onde podemos ir.
E depois há tantas outras distracções em casa, praticamente tudo se faz à distância de um clique: ler os tesouros de bibliotecas de todo o mundo, ouvir óperas dos teatros mais afamados, rever o histórico desempenho de El Juli no Puerto de Santa María em 2017 ou assistir ao clássico “O Costa de África” com um Vasco Santana aprimoradíssimo numa comédia de enganos do mais rocambolesco possível (como não rir desbragadamente com os equívocos do Mestre com o Barão de Espinhosel, D. Rodrigo Xavier e Mello de Athouguia e Castro?).
Este cheiro apocalíptico que paira no ar, e que nos faz acorrer histéricos à garrafeira na vontade de salvar (beber) os mais aptos dos vinhos, é adensado pela proibição de culto público. Nem Afonso Costa chegou a tanto na I República, e ele bem quis. E mesmo se se tivesse mantido no governo até à chegada da gripe espanhola – o que não sucedeu – duvido que se atrevesse com medidas tão perversas que “respiram o ar das catacumbas, da Igreja perseguida” como referiu o bispo-auxiliar do Cazaquistão D. Athanasius Schneider num comunicado recente.
No entanto, discorde-se ou não, a realidade com que se tem de viver é esta. E talvez isso nos aproxime mais do essencial, do passar a dar verdadeira importância a Jesus Sacramentado, que tantas vezes tomamos por garantido num país onde existe liberdade de culto e facilidade de acesso à Eucaristia, e ao papel da família enquanto igreja doméstica, primeiríssimo transmissor da fé. Porque ainda que não saiamos de casa não significa que esqueçamos as obrigações cristãs. Com a actual facilidade de comunicações só com má vontade é que não se encontra uma ferramenta de auxílio espiritual. Missas na televisão, online, na rádio e no Facebook a praticamente todas as horas de todos os dias, grupos de WhatsApp com meditações e o Angelus, Podcasts com o terço, sermões e mini-retiros, enfim, as propostas são mais que muitas para serem utilizadas pelas famílias. Por isso, agora fará ainda mais sentido aquela comparação tão bonita do chefe de família como sacerdote, profeta e rei da igreja doméstica, enquanto Jesus Cristo o é da Igreja Universal (não confundir com a IURD).
Distracções não faltam e a única dificuldade será mesmo conseguir fazer todas estas coisas antes de a clausura acabar. Esperemos que dê tempo para tudo, caso contrário só na próxima pandemia beberei Barón de Chirel 1996.