Coronavírus Covid-19
Linhas de Elvas
El Faro - Campanha de Verão
Bricoelvas
Elióptica 2020 - Loja Online
Elióptica 2020 - Proteja os olhos
Camelo Maio 2020
Jocriauto 012020
Nabeirauto - Crossland X
Jocriauto 012020
Sanielvas 358x90 - Nov17
Nabeirauto - Crossland X

Páscoa à Portuguesa

Quando cidades portuguesas comemoram publicamente o Ano Novo Chinês ou o fim do Ramadão, não deveriam os municípios continuar ou voltar a apoiar também as manifestações culturais da maioria da população?

25 Março 2020

Nesta quaresma e Páscoa de 2020 talvez faça sentido reflectirmos de forma breve sobre a herança cristã em Portugal. Se é notória a delicadeza do assunto numa época e numa sociedade como a contemporânea, também pode ser útil à comunidade nacional e à reflexão em geral.

Quando cidades portuguesas, como Lisboa, comemoram publicamente o Ano Novo Chinês, o fim do Ramadão, e outras manifestações culturais e religiosas que naturalmente nos ajudam a compreender as diversas culturas ainda que minoritárias no país, surge-nos a questão: não deveriam os municípios continuar ou voltar a apoiar também as manifestações culturais da maioria da população e fundacionais de Portugal? Creio que sim.

Assim chegamos às celebrações pascais e da Semana Santa, auge da religiosidade católica, intimamente arraigadas na cultura portuguesa e suas festas e rituais e que são alicerce da identidade. Ainda hoje marcam o ritmo de organização em vilas e aldeias de norte a sul do país que, ora impulsionadas pelos seus párocos ora por comissões de leigos, preparam este tempo com a anual procissão dos Passos, composta pelos andores de Santa Maria e do Senhor dos Passos, que - juntamente com as procissões dos santos padroeiros das respectivas localidades - é o momento de encontro social local e piedade popular; antecede e prepara para a Semana Santa (que tem mais procissões tradicionais como, por exemplo, na Sexta-Feira Santa, a do Enterro do Senhor ou Senhor Morto, isto é, recordam o percurso da crucificação de Cristo no Gólgota até à ressurreição comemorada no Domingo=Dominicus solene, festivo e jubiloso de Páscoa) e constitui o período de penitência e reflexão de vida dos católicos. E em parte considerável destas vilas a Semana Santa constitui já o programa de turismo cultural/religioso municipal que atrai muitas pessoas para nele participar.

Se a Europa cristã é um dos motores, juntamente com os Gregos antigos e o império Romano, de que somos herdeiros na civilização europeia/ocidental (Cristandade), essa realidade histórica é muito visível na sociedade portuguesa onde, segundo nos indicam os Censos da população, é maioritária. Foi da Igreja Católica que recebemos o legado das formas de sociabilidade que influenciam a nossa maneira de estar e grande parte dos hábitos comemorativos que perduraram e que decorrem directamente do calendário litúrgico. A Igreja Católica Apostólica Romana que, em linguagem teológica, é o “Corpo Místico de Cristo” (carta encíclica do Papa Pio XII) tem anualmente o ponto alto das suas celebrações de fé na Páscoa. Como referimos, em cada aldeia e paróquia se festeja a Páscoa da ressurreição e não faz sentido desprezar ou menosprezar a herança cultural recebida que nos influencia decisivamente enquanto nação e povo. E se a fé é uma vivência pessoal que nos merece a maior consideração, ela deve igualmente ter o seu lugar respeitado no espaço público.

 Façamos o exercício de pensar a Igreja - instituição complexa, terrena mas simultaneamente divina e portanto espiritual - nas suas dimensões cultural e social. Parece evidente que num caminho de 2.000 anos (dois milénios) cometeu erros historicamente datados sendo comummente referido pelos críticos o caso da Inquisição, de que os papas já vieram aliás publicamente assumir o erro, por contradizer a ideia do “mandamento novo” deixado pelo próprio Jesus Cristo, pedindo perdão. Certamente poucos desejariam passar por essa humilhação. Nestes 2 milénios e com alguns erros, consegue-se compreender que quem muito faz também arrisca muito errar e que é sempre mais fácil criticar e nada fazer para a “casa comum”.

Detenhamo-nos então nas dimensões concretas que a sociedade imediatista exige: é merecedora de atenção e raramente abordada a Igreja enquanto mecenas cultural. E impressionante que em cada Igreja Paroquial – para não recuar às bibliotecas monásticas medievais - espalhada por essas terras portuguesas haja a maior concentração de Arte, pintura (decisiva no estilo maneirista e no Barroco) e escultura, normalmente de grande qualidade. São estas Igrejas e capelas abertas ao culto como museus vivos de grande beleza e qualidade artística que congregam os séculos e que vale a pena conhecer. Em segundo lugar é notável a actividade da Igreja na área da solidariedade que, através de inúmeras IPSS, gere jardins de infância e lares de idosos em todas as regiões do país prestando autêntico serviço público nos serviços de proximidade em que o Estado não tem experiência nem disponibilidade.

Desfrutar do que se vislumbra também é uma arte. Votos de feliz Páscoa!

Tiago Matias, licenciado em Estudos Europeus

(Faculdade de Letras de Lisboa)