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Opinião

A epidemia, o homem desesperado e Deus escondido

Talvez a epidemia venha para ficar, talvez seja mais séria do que inicialmente se previa. E agora homem, que vais fazer? Por fim ganhas coragem e reconheces que a vida, cujo controlo julgavas ter, não te pertence, como nada do que possuis te pertence também. Sais de casa a correr, contra todas as indicações de quarentena impostas pela consultora onde trabalhas, e arriscas.

11 Março 2020

Os tempos conturbados hoje vividos pelo COVID-19 trazem ao de cima o que de mais cru o homem tem: para bem e mal dele.

Porquê esta reacção repentina, dramática e alarmista perante o Coronavírus? Porque responde a sociedade com histerismo, violência e obsessão? Porque isto sai do seu controlo. Sai da esfera de previsibilidade e de poder do homem. Ele, que tudo entende, tudo cria, tudo decide, que é dono tanto da sua vontade como da própria natureza, tendo legitimidade para escolher entre a sua vida e a sua morte e a de outros homens, para definir mesmo o que é vida ou não, para optar entre determinadas características fisiológicas em detrimento de outras menos atractivas, para clonar, criar vida artificialmente, modificar genes, aperfeiçoar raças, ele – que em tudo isso é um super-homem, magno e deusificado – frente a esta epidemia desespera.

Desespera por duas razões: porque lhe sai do controlo este imprevisto e porque, face a esse descontrolo, no seu subconsciente, na sua verdadeira natureza humana, com aspirações abstractas para o bem e para a verdade, cai em si e realiza por instantes que ele próprio não é fruto da sua vontade. E é impotente para prolongar durante o tempo que quiser todas aquelas coisas que lhe agradam na vida despreocupada e prazenteira que leva: mais tarde ou mais cedo, com ou sem epidemias, tudo chegará ao fim e ele também.

Este desespero, e sobretudo o medo generalizado, são culpa da concepção homocêntrica que levou a humanidade a afastar-se categoricamente de Deus: sendo o homem o seu princípio e fim, e acabando a morte para sempre com tudo, nada mais existe e por isso há que agarrar desesperadamente a vida. Caso contrário, o homem nada é. O homem amarra-se à vida não pelo valor intrínseco que esta tem, mas por aquilo que lhe proporciona: por lhe deixar continuar a viver comodamente, por lhe permitir gozar no corpo os prazeres do mundo e por aguentá-lo na orbe e em sociedade como obreiro, criativo e consumidor. Se acaso a vida cessa de lhe conferir todas estas coisas boas, esse estado do ser deixa de se considerar verdadeira vida porque já não lhe serve.

Que desconsolo para o homem ver-se assim sozinho, desamparado, sem colo de mãe, perante uma tragédia com a qual não sabe lidar e que não lhe dá tempo para se resolver interiormente: o homem tem muita coisa por resolver, mas vai adiando, adiando, adiando, até à cabeceira da morte natural, que ambiciona um dia ter, com parentes à volta e uma derradeira reconciliação com o Criador, há muito querida mas não assumida.

Talvez a epidemia venha para ficar, talvez seja mais séria do que inicialmente se previa. E agora homem, que vais fazer? Por fim ganhas coragem e reconheces que a vida, cujo controlo julgavas ter, não te pertence, como nada do que possuis te pertence também. Sais de casa a correr, contra todas as indicações de quarentena impostas pela consultora onde trabalhas, e arriscas. Não a vida, mas a tua coerência existencial. Contra tudo aquilo que foste sendo até agora, procuras ajuda fora de ti.

Mas os templos estão fechados, não há igrejas abertas ao público nem missas públicas. A água benta, esse baluarte tão eficaz contra o maligno, despareceu. As confissões, ainda que não proibidas, são evitadas a todo o custo pelos sacerdotes, que também parecem estar de quarentena imposta pelas suas consultoras. A comunhão agora é distribuída na mão: porque na boca, advogam alguns, é mais provavelmente transmitido o vírus contaminador.

Que a Direcção Geral de Saúde, por extraordinário atrevimento civil, recomendasse à Igreja Católica algumas medidas de prevenção da contaminação do vírus, mostra-se despropositado mas expectável. Que seja a própria Conferência Episcopal Portuguesa a recomendar essas medidas, e sobretudo a administração da comunhão sacramental na mão, é inaudito! Nomeadamente porque, como nos mostra a experiência de casos semelhantes, à mesma velocidade que as portas das igrejas se fecham abrem-se precedentes dificilmente remediáveis em futuro próximo. Situações de excepção (como a comunhão na mão) passam a ser recomendáveis e depois mandatórias, mesmo após o vírus estar extinto. No entanto, é bom lembrar que todos os fiéis têm o direito de receber o Corpo do Senhor, o “Jesus escondido” de São Francisco Marto, tal como deve ser recebido e como recomenda a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos: na boca.

Suprimir as pias de água benta (para grande desconsolo do meu filho António, que assim não pode aspergir todas as pessoas que encontra) ou o abraço da paz ainda são medidas relativamente compreensíveis, e esta última em especial por limitar os contactos corporais num país onde nunca se aperta uma mão se se puder dar um beijinho. Mas obrigar – porque é a este estado que a “recomendação” realmente já chegou – que a Divina Eucaristia, o Pão dos Anjos, esse Penhor da Glória Futura, seja tocado pelas mãos de fiéis que não o querem fazer e, mais grave ainda, com isso correr-se o risco de profanação, seja pelas migalhas das partículas que caiem ao chão, seja pela sujidade que naturalmente tantas mãos têm, seja pela possibilidade de furto de hóstias consagradas – valiosíssimas no mercado negro – não é uma solução honesta nem eficaz para este problema. Aliás, ditaria o bom senso que se considerasse a comunhão administrada directamente pelo sacerdote na boca dos fiéis muito mais segura do que aquela distribuída nas mãos dessa multidão, com maior contacto corporal e propagação de micróbios muito mais evidente.

Tendo sido canceladas as missas em certas paróquias, é de salientar que essa medida não aproveitará a ninguém com excepção dos próprios autores. Os verdadeiros fiéis continuarão a assistir à Santa Missa, mas noutras Vigarias menos previdentes. E outro fenómeno aparecerá rapidamente: nas igrejas em que já não se administra a comunhão na boca, os fiéis que desejam assim receber o Corpo do Senhor hão-de transferir-se para os redutos desse método arcaico nalgumas paróquias resistentes às “recomendações” episcopais.

Siga-se o exemplo da Conferência Episcopal Polaca, que para evitar o ajuntamento de gente irá aumentar o número de celebrações dominicais. Por cá, em vez de se concelebrarem missas com dois ou três sacerdotes, cada um dos concelebrantes que assuma uma missa sozinho.

Como seria impensável encerrar hospitais sob o argumento de evitar a aglomeração excessiva de pessoas e a propagação do Coronavírus, em tempo de epidemia também os hospitais das almas – as igrejas – não se podem fechar. Devem sim manter-se com as portas escancaradas.

E os sacerdotes que não se amedrontem, pois são administradores de sacramentos e salvadores de almas e não delegados de propaganda médica. Se não servirem para dar a vida por Cristo, para que servirão? Para morrerem anos mais tarde, cheios de saúde? Não creio.