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Em Olivença (com cê-cedilha)

Quem é mesmo aficionado vai a tudo, de manhã e à tarde. Mas assim perde-se a oportunidade de uma expedição gastronómica mais preenchida. Não dá para ir à corrida do meio dia e almoçar no Cristo. Em contrapartida, dá sim para jantar, se se conseguir mesa (o que não é nada fácil, principalmente ao sábado). [...] Conseguidos os bilhetes (às vezes a muito custo), só falta esperar pelos grandes dias da feira do toiro de Olivença.

03 Março 2020

Há os que sabem ir e depois há os que vão sem saber. Os que sabem ir preparam a rota atempadamente. Com uma antecedência de meses já reservam o fim-de-semana e vão-se actualizando a diário com as notícias mais recentes, à espera de saírem finalmente os cartéis definitivos. Há muitas hipóteses em cima da mesa, mas nem todas conciliáveis. Quem é mesmo aficionado vai a tudo, de manhã e à tarde. Mas assim perde-se a oportunidade de uma expedição gastronómica mais preenchida. Não dá para ir à corrida do meio dia e almoçar no Cristo. Em contrapartida, dá sim para jantar, se se conseguir mesa (o que não é nada fácil, principalmente ao sábado). Articulados os programas, contacta-se a conhecida agência portuguesa que vende em exclusivo os bilhetes para território nacional ou, ainda melhor, vai-se directamente à bilheteira da praça, que tem a vantagem de vender as entradas sem o ónus das taxas administrativas. Conseguidos os bilhetes (às vezes a muito custo), só falta esperar pelos grandes dias da feira do toiro de Olivença.

 

Ir a Olivença é exaltar Portugal, é chegar a casa e assumir o papel intrínseco de anfitrião ante aquela horda espanhola e espanholista de espanhóis verdadeiros e de aspirantes portugueses, que mais alegria sentem em picar boquerones e puntillitas do que em comer amêijoas à Bulhão Pato. Particularmente no fim-de-semana da feira do toiro, sente-se uma boa disposição generalizada pelas ruas, tudo é festa, sevillanas, cañas e gin Larios, numa antevisão da Primavera que não tarda já em chegar definitivamente. Que alegria ver uma Olivença cheia de gente, onde o toiro é rei, os toureiros príncipes e Morante imperador.

 

Entre a massa humana presente no certame, diria que existem três grupos de participantes. O primeiro é o dos oliventinos. Os oliventinos não são visitantes em casa própria e, como tal, não se portam como turistas. A maioria não quer saber dos toiros em particular, mas sim do ambiente geral, da festa, do botellón, do Melendi a altos berros. Existe a vaga noção de que algo a meio da tarde congrega uma multidão que clama e aplaude, mas as tribos não se misturam.

 

Depois os espanhóis, em cujo grupo os oliventinos não são categorizados (pois isso seria reconhecer a soberania da coroa espanhola sobre aquele território – o que nunca se concederá). Os espanhóis são conhecedores, são os que percebem à séria do assunto. Vêm bem vestidos, os melhores vestidos, mas preparados para a intempérie que não poucas vezes paira sobre a praça. Normalmente são os únicos que trazem almofadas de casa e verdadeiros lenços brancos para pedir as orejas (e não os indignos substitutos têxtis que o inato espírito de improviso português arranja com camisolas, toalhetes, folhas de papel, chapéus e até almofadas – daquelas compradas à porta, obviamente). São também os mais corteses e, por essa razão, os melhores amigos de barra que se podem ter. Nunca lhes passaria pela cabeça pedirem o que quer que fosse sem primeiro convidarem todos os que o rodeiam a una copa y un platito de lomo (por isso nessas alturas é bom estar por perto).

 

Por fim, e sendo Olivença território de jure português, é natural que muitos portugueses acorram também ao teatro taurino. Estes dividem-se também em três subgrupos, a que lhes chamaria de elvenses, aficionados em geral e outros não especificados. Quem diz Elvas, diz Campo Maior e outras terras próximas, mas todos autóctones da região e feirantes de longa data. Tal como os espanhóis, estes também sabem ao que vão. Não almoçam no Cristo porque hão-de ir lá parar ao jantar e antes optam por um programa muito mais divertido e original. Numa carrinha de caixa aberta literalmente aberta, estacionada estrategicamente numa das artérias menos movimentada do centro, tudo se começa a destapar para o picnic pré-corrida, desde os tupperware de panados à tortilha de batatas, a chouriça de sangue, o queijo picante curado, os fartos cestos de pão, o bom tinto de Borba e o branco fresco da Extremadura até ao indispensável whisky cola e manzanilla, que “mezclada con gasosa dá un rebujito que te cagas, tío!”. Estes elvenses sabem-na toda e, tendo “muitos anos disto”, o armar e desarmar da refeição dá-se com relativa ordem e rapidez, de modo a que ninguém se atrase para a corrida. Não direi onde fica este ágape divinal nem por quem é preparado – talvez isso encoraje alguns leitores a tomarem igual iniciativa de preparos quando forem a Olivença.

 

Os aficionados em geral variam muito consoante a zona do país de onde vêm, mas o grupo mais pitoresco que encontro deve ser o de um conhecido clube lisboeta, que organiza uma expedição à extrema lusitana sem se privar de qualquer tipo de comodidade. Saídos de Lisboa, vão todos os sócios num autocarro em que não faltam os confortos do criado de mesa, das bebidas espirituosas e dos aperitivos servidos em abundância. Como a excursão pára antes da corrida da tarde para almoçar com toda a propriedade, e tendo em conta que a viagem da manhã já serviu para abrir o apetite com várias ofertas etílicas, não é de estranhar que alguns dos sócios mais epicuristas nunca cheguem a descer do autocarro depois do repasto para assistirem aos toiros…

 

Os outros não especificados são maioritariamente voyeurs e arrivistas que ali chegam sem qualquer ideia pré-concebida do que se trata e partem sem qualquer reacção conclusiva daquilo que viram.

 

Chegando-se a meia hora do início da corrida, tudo acode em força à praça. Pelo escasso número de portas de entrada, o acesso é difícil, cheio de empurrões, com espertalhões a tentarem colar-se na bicha e com vivas demonstrações de aeróbica na altura de sentar. A cena é sempre a mesma, principalmente com outros não especificados, que pensam estar à procura de lugar na Gulbekian, esperando que o assistente de sala os sente nos seus lugares. Levanta perna, pisa pé, dá com o joelho nas costas de uma volumosa septuagenária pacense, entorna a cerveja no neto da gorda e ouve berros e insultos de todos a quem veda a visão das cortesias – o acomodar do novato não é fácil. Sobretudo porque no fim do segundo toiro é obrigado a levantar-se: o lugar 22 da fila 7 em que estava sentado era do tendido errado.

 

Toda esta massa humana acorre à feira ano após ano, como peregrinos em jornada à terra da promessa taurina. E ano após ano nós portugueses, e de preferência elvenses, voltamos a ser anfitriões. Os espanhóis que regressem, sempre que quiserem, a esta nossa casa: por estes dias, fazemos-lhes uma cedência temporária do espaço.

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