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Opinião

Completamente livre, completamente solto

A minha primeira consciência política terá surgido quando vi a minha Mãe participar activamente na campanha autárquica de 2005 em Elvas.

29 Janeiro 2020

A minha primeira consciência política terá surgido quando vi a minha Mãe participar activamente na campanha autárquica de 2005 em Elvas. Estava então com 13 anos e na fase de desmame dos fantásticos universos tolkieniano e potteriano (em casa éramos mais pelo primeiro, por influência paterna). Tinha ideia de que a Mãe se ausentava de vez em quando para agitar bandeiras num carro com música aos berros. Esse primeiro contacto (indirecto) não surtiu qualquer efeito imediato na minha personalidade, mas sensibilizou-me, ainda que inconscientemente, para a existência de cargos públicos servidos a título temporário por uns
e outros (no nosso caso eram mais os “outros” que os “uns”).

Só mais tarde – diria nas autárquicas de 2009 – pedi para também fazer campanha pelo CDS-PP, o partido da família. Conversando com militantes elvenses percebi que há já alguns anos não existia estrutura concelhia da Juventude Popular. Porque não aventurar-me?, pensei. E assim foi, com mais quatro amigos, na sala de jantar de casa dos meus pais e na presença do Secretário-Geral da estrutura nacional (que nós recebemos como se fosse o imperador austro-húngaro), constituímos formalmente a Concelhia de Elvas da JP.

Deverão imaginar a emoção com que fiquei por dirigir uma estrutura política, seguro de que o futuro de Portugal e do Mundo dependeriam essencialmente das minhas decisões de governo e estratégia… Que boas recordações as desses tempos de activismo social adolescente, colando cartazes e fazendo arruadas debaixo dos urros de alguns. De que nos importava sermos chamados, numa terra eminentemente socialista, de fascistas ou salazaristas – que nunca fomos – se já antes de qualquer ligação partidária nos chamavam exactamente as mesmas coisas? Porque não era um preconceito político que levava aos insultos, era um preconceito social e esse combate era demasiado complexo para ser reduzido ao espectro ideológico. Não me chamavam fascista por ser da JP ou do CDS-PP, em que me filiei assim que atingi a maioridade.

Chamavam-me fascista porque o meu apelido era Abreu. Abreu – lavrador, lavrador – proprietário, proprietário – rico, rico – capitalista, capitalista – opressor, opressor – vilão, vilão – fascista: o raciocínio estava feito e com muito menos conotação política do que se imaginaria! De nada servia explicar que a minha família era da mais média das classes médias, sem direito a extravagâncias ou liberalidades, e que a última relevância patrimonial tinha desparecido com as mundanidades epicuristas do meu bisavô. Não senhor, se era Abreu era rico e fascista (aposto que a filiação centrista até era tomada como um enviesamento à esquerda). Estas vozes alternavam os estereótipos que referi com a “terra da fraternidade”, o que não deixava de ser um curioso paradoxo nos guerrilhas das classes.

Enfim, coisas passadas há 10 anos, em que a ilusão, o empenho e a falta de maiores responsabilidades permitiam que me dedicasse totalmente a estas causas. Fui crescendo, cheguei à universidade e, sem nunca mudar a minha cor política, consegui mudar a visão também estereotipada que tinha sobre algumas correntes. Não é preciso entrar muito a fundo em explicações, mas essencialmente descobri que havia gente de direita que não parecia de direita e gente de esquerda que não parecia de esquerda. Isso foi uma lição essencial para deixar de rotular pessoas e também para estabelecer com elas os mais variados diálogos intelectuais.

Enquanto católico, pensava que a democracia cristã (mais do que o liberalismo e o conservadorismo) era o espelho civil da Santa Igreja, mas nesta década de militância partidária já percebi que não podia estar mais errado. Nenhum sistema político feito pelo homem, nem nenhuma estrutura social, pode jamais assumir-se como a concretização prática do cristianismo. Simplesmente pelo facto de um ser precisamente fundado pelo homem e o outro por Deus. Mas tal não impede que existam valores cristãos pelos quais as sociedades se podem reger e batalhas comuns que têm de ser travadas não só pela Igreja como por todos os homens de boa vontade, crentes ou não. Por isso, nessa saudável e necessária separação, não pode no entanto ser descurada a doutrina social da Igreja – inaugurada por Leão XIII com a encíclica “Rerum Novarum” – como a proposta mais humanista para o governo de um povo que se quer digno e dignificante.

Tudo isto para chegar ao dia de hoje, em que já não alimento esperanças vãs de que um líder partidário seja um Papa leigo. Mas em que lhe exijo que seja um “vir bonae voluntatis”, um homem de boa vontade que ponha o ser humano, a vida e a família à frente do ambientalismo, da morte e do estado. Foi isso que exigi tacitamente com o meu voto em Francisco Rodrigues dos Santos neste fim-de-semana em Aveiro e é isso que espero ver materializado no seu mandato. O arremesso de insultos como “fascista” que eu levava em miúdo é agora replicado nele com palavas mais polidas mas igualmente acutilantes. A mais badalada tem sido “idealista”, que pode significar tanta coisa que o seu carácter andrógino a impede de ser autopsiada.

Tal como eu fazia ouvidos de mercador a alguns obtusos que teimavam com a nossa juventude partidária em terras alentejanas socialíssimas, também o novo presidente do CDS-PP não deve dar importância às críticas (muitas até internas) que se baseiem meramente em adjectivações sem conteúdo. Talvez os “fascistas” de ontem sejam os “idealistas” de hoje. Só espero que, ao contrário do que se passou comigo, a luta seja agora exclusivamente política e não fundada em qualquer tipo de preconceito.