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Opinião

À mesa com católicos

Será a maneira como vemos o mundo determinante na maneira como vivemos no mundo? Para o autor de Salomé não restavam dúvidas de que a religião influenciava o comportamento perante o prazer, já que no caso inglês a consciência protestante não impediria de pecar, mas apenas de desfrutar do pecado.

15 Janeiro 2020

Para Oscar Wilde o inferno era um lugar onde o cozinheiro seria inglês. E ainda hoje, passado mais de um século, com um mundo maturado por duas grandes guerras, ascensão e queda de tantos regimes e uma revolução tecnológica única na história do Homem, o paradigma global da cozinha sensaborona manteve-se inalterado no Reino Unido. Talvez os países nórdicos e a Alemanha também disputem ocasionalmente os segundos lugares, mas o pódio nunca é ocupado por países católicos.

Será a maneira como vemos o mundo determinante na maneira como vivemos no mundo? Para o autor de Salomé não restavam dúvidas de que a religião influenciava o comportamento perante o prazer, já que no caso inglês a consciência protestante não impediria de pecar, mas apenas de desfrutar do pecado.

Com isto não quero subscrever que, em contraposição ao protestante, o católico se agarre ao pecado com maior dedicação ou que, a ser assim, isso não deva ser fortemente combatido pela virtude cardeal da temperança. Contudo, certo é que a alegria, a exuberância, a cor, a “flamboyance” que o católico tem perante o mundo permite-lhe abraçar a vida com tudo o que esta lhe dá. Por isso na cozinha não se contenta com salsichas e chucrute e empreende uma incessante busca pelos condimentos, o azeite, o alho, o refogado, a carne que é batida, massajada, temperada, o peixe fresquíssimo ao sal, ou então no forno com cebolada e pimentos, os molhos, que não faltam nos pratos mais ricos, tudo é feito com esmero, esforço, amor, nada é sem gosto ou deixado ao acaso. Se não há jantar em casa, não se vai à cadeia de hambúrgueres industriais mais próxima, nem pensar; antes se descongela metade de um cabrito ou umas perdizes que foram para a arca embrulhadas em jornal e se inventa logo um petisco. Leite às refeições? Pobres crianças protestantes, a quem é vedado o sublime prazer de provarem o vinho doce e o espumante fresco que a indulgência paterna orgulhosamente permite aos seus rebentos romanos. O menino não pode beber álcool? Claro que pode beber, e quanto mais depressa for descomplexado em relação às bebidas mais depressa evitará aquelas grandes bebedeiras que os adolescentes protestantes apanham com tequila, em sôfregos golos às escondidas dos pais. Aqui se vê a diferença, porque enquanto este bebe para se embriagar, sem obter a menor satisfação com a ingerência de shots de absinto, aquele ri-se desse quadro miserável saboreando prazerosa e calmamente um copo de Pomerol.

Naturalmente que a estas generalizações não se deve dar maior crédito do que às restantes coisas que escrevo, mas em todo o caso este discurso hiperbólico ilustra bem o problema religioso, já que o protestantismo oprimiu desde a sua génese qualquer noção de joie de vivre. A doutrina da “sola fide” de Lutero (de que só a fé nos salva) deu ao homem o fardo insuportável de lidar sozinho com a sua salvação, assumindo toda a responsabilidade das suas acções e, por isso mesmo, incapaz de se entregar à “concupiscência” da comida.

Enquanto o fiel católico pode sempre confiar na confissão sacramental como mecanismo de absolvição das faltas cometidas e na Santa Missa como renovação incruenta do Sacrifício do Calvário que remiu os pecados do mundo, o protestante perante a tragicidade da sua condição solitária cai exausto por não se poder agarrar a nada. Neste estado de profunda depressão chega à cozinha, olha para os tachos, olha para o frigorífico, e não lhe sai nada mais criativo do que Bangers and Mash (salsichas e puré), Jellied eels (enguias em gelatina), Stargazy pie (tarte de sardinhas, decorada com as cabeças das mesmas), Haggis (delicioso bucho de ovelha recheado com suas vísceras), Leberkäse (queijo de fígado – palavras para quê?) ou Hofer Schwaaß (sangue cozinhado com carne, cebola e pão duro).

É por esta razão – e não pela geografia dos países, pois como se explica que na Polónia se coma maravilhosamente? – que a mestria culinária atingiu o seu auge em França e não na Suécia ou nos Países Baixos. Porque habituado a cair e a levantar-se do chão tantas vezes, o católico não baixa os braços conformado com a miséria da sua condição pecadora e recomeça alegremente todos os dias. Isto dá-lhe tal estímulo para procurar o sabor perfeito que com tudo o que tenha à frente faz pratos deliciosos. Um pouco de água a ferver, alho, coentros, azeite, bacalhau, ovo cozido e pão nas suas mãos transformam-se numa açorda alentejana. Nas mãos de um luterano transformar-se-iam em água de lavar pratos com sabor a peixe, ou Spülwasser mit Fischgeschmack.