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Opinião

A cigana do Egipto

Há poucos meses surgiu no mercado uma obra inédita de Josefa de Óbidos que o Estado Português infelizmente não conseguiu comprar. Esse quadro, chamado de “A leitura da sina do Menino Jesus”, mostra o Menino ao colo de Nossa Senhora estendendo a mão para a cigana que, ajoelhada, Lhe diz a sorte.

20 Dezembro 2019

O Menino da Senhora – que chama pai a São José, como diz o povo –, depois de ter nascido na noite do caramelo, naquela gruta gélida que, sem aspirações maiores do que a manter-se a gruta com animais que sempre tinha sido, converteu-se no berço do mundo, ficou por Belém durante algum tempo. Mas a visita régia recebida dos magos não tinha passado despercebida a Herodes que, receoso dos tumultos populares que o surgimento de um rei dos Judeus pudesse provocar em relação à sua pessoa, andava bastante agitado.

Terminada a Santa Missa Nova do Menino Jesus, os três cavalheiros acharam cumprida a sua tarefa de presentearem e adorarem o Messias e decidiram partir imediatamente de volta para o Oriente. Ignorantes das maléficas pretensões de Herodes, pensavam passar no regresso pelo seu palácio, conforme tinham combinado, para que o informassem do paradeiro do Salvador do Mundo. Mas depois do primeiro dia de viagem, pernoitando na vila de Al-Ubeidiya (mais concretamente na cave do actual Mosteiro de São Teodósio, segundo reza a tradição), apareceu-lhes um anjo que os alertou para voltarem a casa sem reportarem a Herodes onde se encontrava Jesus. Assim obedeceram os reis magos e, voltando a montar as suas bestas, enormes, do tamanho de torres, que faziam sombra no mar, tudo fizeram para não passarem novamente por Jerusalém.

Em Belém ficou a Sagrada Família, voltando à sua vida normal, depois de tantas visitas especiais que tinha recebido, dos pastores aos magos. Nossa Senhora lavava os cueirinhos, São José estendia-os e o Menino chorava do frio que fazia naquelas noites invernosas em que os Santos Progenitores mal pregavam olho por causa do berreiro do bebé. No entanto, tudo se fazia com muita alegria e humor, como acontece com todos os pais que, por mais noites que se levantem para irem consolar os seus filhos, nunca serão capazes de lhes querer outra coisa senão um bem incomensurável. Numa dessas noites em branco, quando Nossa Senhora estava a alimentar Jesus e São José dava voltas na cama sem conseguir dormir, o Patriarca ouviu um barulho vindo da rua e levantou-se para ir mandar calar o cão que habitualmente ladrava àquela hora. No entanto, em vez de um ser canídeo deu de caras com um ser angélico, que era familiar por ter sido o mesmo que lhe anunciara que Maria iria gerar o filho de Deus e a Quem deveriam chamar de Jesus. O anjo disse-lhe: “Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto e fica lá até que eu te diga, pois Herodes vai procurar o Menino para O matar” (Mt 2, 13).

São José não perdeu tempo, arrumou todas as suas trouxas, desprendeu o burro da manjedoura, sentou nele Nossa Senhora com o Menino e lá correram para o Egipto.
Passou uma semana, outra, depois um mês, dois, três, cinco, até que Herodes deixou de esperançar na vinda daqueles orientais. Das duas uma: ou eles eram uns charlatões (como havia tantos, principalmente daquelas regiões remotas, cheios de turbantes e serpentes) e quiseram um momento de protagonismo com um verdadeiro rei, como ele era, ou então tinham-no enganado e escondido o Messias. Extremamente inseguro e invejoso, como era, Herodes via conspirações e cabalas por todo o lado e a sua paranóia chegou ao ponto de ter mandado matar os seus filhos Aristóbulo, Alexandre, Antípatro e, mais tarde, a sua mulher Mariana. Com um temperamento destes, não foi difícil optar pela decisão mais segura de matar todos os meninos com menos de dois anos nascidos na região de Belém, de modo a que o dito Messias não sobrevivesse de maneira alguma…

Há poucos meses surgiu no mercado uma obra inédita de Josefa de Óbidos que o Estado Português infelizmente não conseguiu comprar. Esse quadro, chamado de “A leitura da sina do Menino Jesus”, mostra o Menino ao colo de Nossa Senhora estendendo a mão para a cigana que, ajoelhada, Lhe diz a sorte.

A acção decorre no momento da fuga para o Egipto, quando a Sagrada Família encontra uma ciganinha que, tomando-os por peregrinos, oferece-lhes a sua tenda para descansarem. Rapidamente reconhece a divindade do Menino e pede-Lhe a mão para ver o destino. Comovida, começa a contar cada um dos momentos da vida de Jesus, alertando Nossa Senhora de que iria passar por grandes sofrimentos e dores.

Nessa altura a Virgem lembrou-se das palavras que Simeão lhe dissera no Templo: “Uma espada trespassará a tua alma” (Lc 2,35). “Quem era aquela profetiza que falava de coisas tão espantosas? E como lhe podiam agradecer a estadia?” perguntou Nossa Senhora. “Sou filha do conde do Egipto, o rei dos ciganos que manda nestas terras” disse a cigana “e peço somente que intercedam por mim para ganhar a vida eterna, que nada mais me importa!”.

Prometida a intercessão quando fosse a altura certa, a Sagrada Família seguiu viagem na terra dos faraós e assentou arraiais primeiro na zona de Matariya e depois no Cairo Copta, no que é hoje a Igreja dos Santos Sérgio e Baco. São José empregou-se na construção da Fortaleza da Babilónia para prover a sua família e diz-se que durante esse período o Menino Jesus realizou vários milagres.

É curioso que volvidos tantos anos venha a aparecer o registo no século XVII de um conde cigano em Elvas a quem o vereador da Câmara tratava com bastante deferência. Talvez fosse descendente daquela família condal egípcia ou da cigana que leu a sina ao Menino. Ainda hoje o povo elvense lembra essa e outras aventuras remotas cantando (cada vez mais raramente) quadras sobre os ciganos e o Menino:

Sou cigano do Egipto,
Minha sina é roubar,
Vou roubar o Deus Menino,
Antes da Virgem chegar.
Sou cigana do Egipto,
O meu destino é roubar,
Hei-de roubar o Deus Menino,
P’ra minha alma salvar.
Namorou-se o Deus Menino,
De uma cigana em Belém,
E olha a dita da cigana,
O lindo amor que tem.
Sou cigana, sou cigana,
Caminho para Belém,
Vou dar graças ao Menino,
E à Senhora o parabém.
Parabéns vos dou Senhora,
P'lo vosso Filho nascido,
Na Terra seja louvado,
E no Céu engrandecido.