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Opinião

De quem são os três cavalos?

Há qualquer coisa de único no Natal de Elvas. Seja pelo frio, as roncas, os cantares ao Menino Jesus, os capotes, o toro de madeira a arder na praça, as filhoses, os nogados ou as azevias, seja por tudo isso ou por outras coisas de que não me lembro ou não sei explicar, o que é certo é que nesta terra o Natal é muito especial.

12 Dezembro 2019

Há qualquer coisa de único no Natal de Elvas. Seja pelo frio, as roncas, os cantares ao Menino Jesus, os capotes, o toro de madeira a arder na praça, as filhoses, os nogados ou as azevias (é impressionante como de grão de bico se faz recheio de um doce tão maravilhoso – viva a pobreza alentejana!), seja por tudo isso ou por outras coisas de que não me lembro ou não sei explicar, o que é certo é que nesta terra o Natal é muito especial.

Não há elvense digno desse nome, ou mesmo alentejano, ou até português, que não saiba duas ou três estrofes do Natal de Elvas. Essas quadras, talvez nascidas em qualquer outro lado, foram crescendo, sofrendo mutilações, ajuntadas a trechos mais eruditos e profanadas com outros mais pagãos e ficaram um matagal da mais densa criatividade popular que fazem agora corar tanto linguistas como teólogos. A Virgem lava, faz meia e cozinha e São José estende os cueiros, os calções e a camisa, embala o menino – seja com a mão ou com o pé – faz-Lhe a cama curta e vai-Lhe comprar prendinhas à feira de Santo André. Passando por cima da evidente impossibilidade de termos um certame tipo feira de Maio na Judeia há 2.000 anos, o mais singular destes versos é a profanação do sagrado, transportando-o para a vida corrente dos crentes, e a sobreposição de dados da história da liturgia e do próprio Cristianismo. Estará isto porventura relacionado com o facto de o Sul ter sido uma região historicamente menos assistida por sacerdotes e, por isso, ter desenvolvido um maravilhoso cristão criativamente muito mais solto de fontes bíblicas? Talvez…

Estava ontem a fazer um registo comercial online, coisa que faço amiúde pela minha profissão, quando o sistema me pediu, como de costume, a chave digital de autenticação e um subsequente clique na caixa “Entrar no Portal”.

Não sei se pela época adventícia, ou pelos versos ao Menino Jesus cantados em Elvas no fim-de-semana passado ainda a ecoarem na cabeça, o certo é que fiquei mais sensível para esta expressão, tantas vezes lida e nunca antes verdadeiramente compreendida. Desperto então para o sentido do que o Balcão do Empreendedor me convidava a fazer, lá entrei no Portal e vi ao vivo este quadro do imaginário setecentista português.

Três cavalheiros (que o povo não distinguia bem entre cavaleiros e cavalheiros, numa altura em que uma e outra condições eram indissociáveis) vinham lá do Oriente, dumas terras do fim do mundo onde havia homens anfíbios e outros com cabeça de cão, centauros, gigantes, leões vermelhos e amazonas e uma riqueza feérica que será depois herdada pelo Prestes João, misterioso descendente dessa gente. Tendo tido notícia do nascimento de Jesus, os Magos puseram-se imediatamente a caminho para o adorarem, seguindo os sinais do céu. Tal era o seu tamanho e a enormidade dos cavalos que montavam – originários dessas terras fantásticas – que cavaleiros e montadas pareciam torres e chegavam a fazer sombra no próprio mar.

Assim que chegaram a Belém de Judá, depois de uma vigem exaustiva sem paragens nem repouso, não queriam acreditar no que viam: a gruta sobre a qual poisou a estrela estava sem ninguém, o curral nem animais tinha e o berço era só madeira e palha. “Cadé o menino?” perguntou Gaspar. “Fomos enganados!” disse Belchior. “Não acredito nisto, depois de tantos dias de viagem…” lamentou Baltazar. E enquanto resmungavam que não eram magos, coisa nenhuma, e que qualquer discípulo de Gamaliel saberia logo ler em Isaías onde o Messias havia de nascer enquanto que eles caíam assim num embuste, apareceram dois pastores. “Desculpem os cavalheiros” começou o Anselmo, “mas não pudemos deixar de ouvir os senhores doutores. Parece que buscam o Menino? Ele abalou daqui há nem uma hora, foi dizer missa nova ali na capelinha da serra”, ao que o Zé da Alberta acrescentou “fica naquele alto, estão a ver? A túnica a estrear foi a minha Hermínia que a bordou.”

Os grandes sábios lá correram à capelinha e, apeando-se das montadas, deram com o Menino Jesus já de pé no altar, pronto para rezar missa e paramentado com a alva da Hermínia e restante parafernália – cíngulo, estola, casula e manípulo. De subdiáconos estavam São João e São Pedro, que andavam às voltas com o turíbulo. “Meu Senhor, já não temos nada para queimar” queixou-se São João. Como ouvissem os queixumes do discípulo predilecto, os cavalheiros logo se intrometeram na conversa e abriram os alforges que traziam: “Menino Jesus, Deus Infante, por fim Vos encontramos! Depois de tamanha odisseia, de tantos mares navegados e terra calcorreada, viemos apenas para Vos adorar e oferecer-Vos estas prendinhas singelas, de reis para Rei.” Sacaram do incenso, que foi logo passado aos apóstolos para incensarem o altar, um cálice e patena de ouro puro para o Santo Sacrifício e a mirra para ser entregue no ofertório como símbolo da humanidade de Cristo. Tendo agradecido os presentes, o Menino Jesus começou então a missa.

Os três Reis Magos sentaram-se o melhor que puderam, entre fardos de palha e um banquinho tosco, e assistiram àquela cerimónia santa, com o Menino vestido de luz, São João nas campanas e São Pedro mudando o missal da Epístola para o Evangelho.

Aqui se cumpria o romance natalício que António Tomás Pires recolheu em Elvas em 1895 e que hoje já se canta de forma alterada, começando pela frase “De quem são os três cavalos”:

“Quais foram os três Reis Magos, que fizeram sombra no mar?
Foram os três do Loriente, que a Jesus foram buscar.
Não procuram por pousada, nem aonde hão de ir pousar,
Procuram por Jesus Cristo, onde O hão de ir achar?

Foram-n’O achar em Belém, revestido no altar;
Missa nova quer dizer, missa nova quer cantar;
S. João ajuda à missa, S. Pedro muda o missar.”

E aqui também se cumpriu o que São Tomás de Aquino escreveria muitos anos depois sobre os Magos: “vident enim hominem, et agnoscunt Deum”: “viram um homem, mas reconheceram Deus”.