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Opinião

O Capote do Menino Jesus

Por fim conquistados com a insistência dos pastores, os Santos Progenitores lá aceitaram o capote, agradeceram muito os presentes (incluindo o mata-bicho) e despediram-se daquela comitiva rural, tão simples, mas tão generosa, dando tudo o que tinham e nunca perdendo a alegria, o jeito para o improviso e a capacidade de verem o lado bom em todas as circunstâncias.

27 Novembro 2019

Agora que o frio chega, não propriamente em força, mas já com alguma convicção, reconhecemos só haver um verdadeiro abrigo que lhe faça frente, o mais digno, o mais nobre, o maior de todas as peças de vestuário. E só é tão grande a sua nobreza porque também é grande a sua singeleza: a capa do camponês, a cama do pastor, a manta do tamanho do mundo que desde sempre vestiu e protegeu a gente do campo. É por essa sua simplicidade que o verdadeiro capote alentejano, comprido, quase até ao tornozelo, de cores sóbrias, e gola de borrego ou raposa, é a mais bela peça de vestuário que uma pessoa pode ter. De construção tão simples, tão natural, tão imemorial, que não nos surpreenderia se os próprios pastores de Belém, primeiros visitadores do Menino Jesus, usassem capotes quando entraram por esse portal sagrado para adorar o Salvador do Mundo deitado em palhinhas.

Terá sido essa uma das primeiras visões do Messias, das primeiras imagens que teve em vida, a do capote de burel? Gostava de pensar que sim, que ao se aproximarem esses campónios do berço doirado e entregando como presente os toscos brinquedos de madeira e osso que esculpiam nas horas vagas, o Deus-Menino levou a mão à gola de borrego e começou a dar festas na pele escura. “Que fofa é esta peliça” deve ter pensado Jesus, pois não tirava a mão da gola do capote. Este quadro tanto enterneceu o pastor que tinha a Santa Mão junto ao seu pescoço, que sem hesitar despiu o capote e pô-lo como manta a cobrir o berço, tendo cuidado para deixar a gola de pêlo mais próxima do bebé.

Vendo este gesto tão comovente, Nossa Senhora não quis aceitar a oferta, pois se algo mais do que aquele capote o pastor possuía seria apenas a roupa que levava vestida por baixo. “Deixe estar, Minha Senhora, há-de fazer mais falta ao Menino do que a mim. Além disso, acho que se Lhe tirássemos agora a pele da mão desatava aí num berreiro que até os anjos que cantaram há pouco se assustavam!”. Todos riram e São José agradeceu-lhes muito a visita e pediu desculpas por não ter nada para lhes oferecer. “Não se preocupe, Meu Senhor, aqui o Zé da Alberta tem um mata-bicho na sacola que até põe o burro a bailar. E deixe cá ver se a minha Hermínia não me mandou uma merendeira… Ora aqui está!” disse o pastor acenando com o queijo na mão. A aguardente foi destapada, o queijo finamente cortado, Nossa Senhora trouxe um pão que lhe tinham dado na hospedaria, em comiseração por não os ter acolhido, e ali se improvisou a primeira ceia a que assistiu Cristo.

“E agora como volta para casa, sem casaco nem nada? O que lhe dirá a sua Hermínia?” perguntou preocupada Nossa Senhora. “Ora, não se preocupe, Minha Senhora, eu divido o meu capote com o Anselmo” – respondeu o Zé da Alberta – “este cortado à metade chega e sobra para os dois. Ora não vê Vossemecê que isto é quase uma tenda, dava para cobrir o deserto! O meu até me estava muito solto, andava sempre a tropeçar… Já o tinha herdado do meu pai, e ele tinha o dobro do meu tamanho (nem sei como uma pessoa tão grande teve um filho tão pequeno), e até a minha Maria já me andava a moer o juízo para o encurtar, só que eu nunca paro muito tempo em casa (por causa do rebanho, está a ver Vossemecê?) e ainda não tinha conseguido deixar o capote nas mãos dela um dia ou dois para este serviço. A minha Maria
até há-de agradecer aqui ao Anselmo!”

“E além disso, Vossemecês não são daqui, pois não?” – perguntou o Zé da Alberta – “É que fora da região não se fazem estas coisas, ninguém sabe trabalhar o burel e não há peles iguais, olhem esta maciez! Assim já levam uma prenda em condições para quando o Menino for mais crescido, vão ver que vai parecer um príncipe, com uma capa destas! E depois, isto é uma peça que não tem idade, ainda lhe há-de chegar aos netos!”.

Por fim conquistados com a insistência dos pastores, os Santos Progenitores lá aceitaram o capote, agradeceram muito os presentes (incluindo o mata-bicho) e despediram-se daquela comitiva rural, tão simples, mas tão generosa, dando tudo o que tinham e nunca perdendo a alegria, o jeito para o improviso e a capacidade de verem o lado bom em todas as circunstâncias.

E mais cedo do que esperavam, deram grande uso ao capote. Quando Herodes mandou matar todos os meninos com menos de dois anos, a Sagrada Família pôs-se logo em fuga para livrar o Menino do Massacre dos Inocentes. São José arranjou um jumentito, meteu Nossa Senhora e o Menino no dorso, cobriu-os com aquela imensidão de lã e conduziu-os até ao Egipto, com o Menino sempre agarrado à gola de borrego.