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Opinião

A minha feira da Golegã

E por fim, chega o deleite de andar pelas ruas cheias de cavalos e gente, com o som dos cascos a retinir na calçada, o estalar do chicote, as guizeiras desengonçadas nos carros e o fumo das castanhas a dar um ar místico a todo o ambiente.

12 Novembro 2019

O dia menos produtivo do ano, aquele em que evito marcar reuniões, assumir responsabilidades, agendar compromissos de qualquer natureza, e em que pouco mais faço durante o expediente que olhar para o relógio, em contagem lentamente decrescente até que seja admissível escapulir-me do escritório sem que me perguntem se vou lanchar, é o dia em que vou para a feira da Golegã. Mais do que esse dia, é toda a semana que o antecede um verdadeiro recolhimento ascético de debate moral sobre uma das grandes questões do Homem: irá ou não estar frio suficiente para levar capote?

 

É altura de mudar as cordas da viola e deixá-la apta para as fadistices e as mais atrevidas rumbas e sevilhanas. É altura de mandar encerar o Barbour para que esteja impermeável para as primeiras chuvas de Novembro. Passam-se em revista os fados marialvas menos cantados, sobretudo aqueles que falam da feira de S. Martinho. Voltam a decorar-se os tons do Franklin de Sextilhas e do Fado de Sta. Luzia e as passagens do Vira de Frielas. E aquele reggaeton que está agora na moda é rapidamente “aflamencado” para permitir que possa ser cantado à viola e ao cajón.

 

O dia da ida é uma agitação. Se se vai de boleia, chega-se ao escritório vestido como quem vai caçar grouses na Escócia, com sacos e malas atrás, viola, casaco, uma grade de minis e sei lá mais o quê, ao ponto de nesse dia ninguém estranhar se vir uma tenda de campanha e uma sela portuguesa na recepção.

 

Depois, vem a odisseia das combinações de boleias, cujas negociações não desejaria ao mais despótico estadista. Em regra, começam pelo envio de uma mensagem do proprietário do carro aos outros passageiros em tom que não deixa margem para qualquer tipo de negociação: “às 19h no Saldanha”. No entanto, esta informação é sempre entendida como meramente sugestiva, pelo que cada um dos seus receptores acha-se no direito de ajuizar sobre a sensatez da proposta: “não pode ser um bocadinho mais tarde? Só estou despachada às 19h45…” ou “por acaso não passas por Alcântara? É que estou sem carro desde quarta-feira…”.

 

É um mistério porque a uma mensagem tão sucinta e directa seja humanamente impossível responder também sucinta e directamente. E claro que quanto mais informações contenha a mensagem, pior será. Por exemplo, se a mensagem dissesse “às 19h no Saldanha, vamos na carrinha da minha mãe e levamos o cão”, às respostas referidas ainda haveria quem acrescentasse “não dá para levarmos o carro do teu pai? A carrinha gasta imenso…” ou “tens mesmo de levar o cão? É que eu sou alérgica e assim vou ficar péssima todo o fim-de-semana…”. Imutável é que estas respostas sejam dividas em duas partes: a primeira que tenta delicadamente questionar a realidade proposta (normalmente começada com “por acaso…”) e a segunda que justifica a discordância para com os factos fixados por quem dá a boleia (quase sempre terminada com reticências para estimular a comiseração).

 

Quando todos se entendem finalmente sobre quem vai, a que horas e onde (lá para as 21h), o carro sai em grande euforia com a banda sonora dos Siempre Así em volume máximo até ser feita a primeira paragem obrigatória: a estação de serviço de Aveiras. A tentativa, todos os anos repetida, de fazer a viagem inteira de seguida nunca é aceite pelos passageiros, que rezam em coro a ladainha dos “é só mesmo…” para levantar dinheiro, que nunca há no multibanco da vila, para comprar cigarros à Sofia, que me pediu, ou para ir à casa-de-banho, que para chegar a horas ao carro nem tive tempo de ir no escritório. Depois de todas as necessidades estarem satisfeitas, e depois de cumprimentados muitos conhecidos que se encontram anualmente por esta altura na estação de Aveiras, a viagem prossegue sem mais interrupções até chegarmos à entrada da Golegã.

 

Nessa altura o êxtase é tão grande que só com bastante fortaleza interior conseguimos terminar o percurso em segurança, tal não é a vontade de deixar o carro abandonado no meio da estrada para corrermos à barraca de imperiais mais próxima. E por fim, chega o deleite de andar pelas ruas cheias de cavalos e gente, com o som dos cascos a retinir na calçada, o estalar do chicote, as guizeiras desengonçadas nos carros e o fumo das castanhas a dar um ar místico a todo o ambiente. Há tanta gente que mal se anda na manga, é um rebuliço com os cavalos entre as pessoas e as pessoas entre os cavalos, o povo rindo desbragadamente, os turistas com chapéus pretensiosamente rurais, os lavradores nos seus pavilhões e os convidados dos lavradores à janela mostrando a posição privilegiada que temporariamente têm, os arrivistas topados à distância com uma profusão de peles e penas mais dignas de um edredom e os orgulhosos cavaleiros de vara, rédeas, cigarro e copo na mão, ainda conseguindo com uma destreza incrível descobrir as cabeças para saudar as senhoras e tirar um rissol do prato de barro que a dona do pavilhão faz passar para a rua.

 

Montada toda a cena, é então que se prova o verdadeiro abafado, a água-pé tem mais sabor, o fado escuta-se de uma maneira única e toda a gente está feliz, despreocupada e alegre. Os velhos amigos reencontram-se, tantas caras conhecidas, as personagens de sempre voltam a marcar presença, beijinhos, passou-bens, um aceno de mão ao longe acompanhado de um “já aí passo” que nunca se concretiza, e organizam-se tertúlias de última hora:

- Vamos ao pavilhão do lado e depois passamos no anexo do Zé Francisco…

- E não se esqueçam que temos de dar um salto ao pátio dos tios para provar o branco da adega nova.

- Olhem que prometemos ir a casa da Paula para a ginjinha!

- E à Companhia das Lezírias para o fado…

- E ao Turf ver as cavalhadas…

- Mas o Tomás não canta às sete no João Lynce?

- Sim, mas antes de tudo vamos ouvir os Borracheros na tenda grande!

 

Em tudo isto, a minha maneira de viver a feira da Golegã não será muito diferente da de outras pessoas, que também não param quietas nas tertúlias, nos convívios, nas coparias e no Coparias… Torna-se sim diferente porque vivemos o S. Martinho irmãmente, com um grupo que já é mais família do que apenas amigos. Unimo-nos numa casa de verdade, e não num qualquer Airbnb com quartos na marquise, à volta da figura de uma avó. Essa avó, a avó Mercedes, adoptava-nos a todos como netos nessas temporadas que passávamos em sua casa e era a presença fundamental para dar sentido e ordem aos dias desregrados que levávamos. Com ela, tínhamos uma hora para almoçar e independentemente das madrugadas, ceias e “matinais” que se fizessem e do muito ou pouco tempo dormido, às duas da tarde lá estava tudo (às vezes vinte ou trinta mancebos) lavado, vestido e sentado à mesa, à espera que a tia Mercedes começasse a comer a açorda de tomate. Essas almoçaradas, esse convívio em casa que se prolongava tantas vezes até ao anoitecer, em estado que não se percebia se de semi-ressaca, semi-sobriedade ou semi-embriaguez, ou tudo junto, eram naturalmente o melhor momento da feira da Golegã.

 

Todos à volta da mesa, em cantorias, com violas, guitarras, percussão e o que mais houvesse, o vinho e o abafado sempre a passarem, muitos cigarros e muito fumo, gente a entrar e sair, anedotas, historietas e novidades da noite anterior, telefonemas, “venham cá ter”, “já aí vamos”, “traz-me cigarros, se faz favor”. O riso era geral quando se ouviam as paródias aos fados tradicionais, elas próprias já convertidas em clássicos da feira, como o Fado do Inglês ou o Fado do Jet7, e as incursões na música experimental com os temas “Isabelinha Palmela baila rumbita” e “Pepperpurri Pimenta”, piadas privadas de um grupo restrito com um humor muito particular.

 

Tudo isto eu não pude viver este ano. E por sentir tantíssima falta da feira da Golegã, o único consolo que achei nestes dias em que estive no Luxemburgo foi recordar todas estas memórias e imaginar que à medida que as escrevia elas iam-se repetindo em Portugal. Infelizmente, a tia Mercedes já morreu, e a sua falta é constantemente notada em cada feira que passa, e imagino que este ano não tenha sido diferente. Mas a melhor homenagem que os “netos” lhe podem fazer é manter vivo o espírito familiar que nos uniu à sua volta. E continuar a almoçar a horas decentes…