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Opinião

O Senhor da Piedade, Greta e Tancos

Este ano não tive oportunidade de participar na Procissão dos Pendões e senti saudades de muitas coisas. Mas senti principalmente falta de ir à boleia nos carros dos Romeiros de Vila Boim a cantar e “balhar” as saias, aos ritmos das palmas, castanholas e pandeiretas.

03 Outubro 2019

Este ano não tive oportunidade de participar na Procissão dos Pendões e senti saudades de muitas coisas. Mas senti principalmente falta de ir à boleia nos carros dos Romeiros de Vila Boim a cantar e “balhar” as saias, aos ritmos das palmas, castanholas e pandeiretas. Porque apesar de elvense, essa réstia de sangue “camponês” que me corre nas veias é suficiente para justificar que desde muito novo tenha aprendido inúmeras quadras e modas das saias campomaiorenses, que me permitem passar noites inteiras a debitar versos, para exasperação dos ouvintes.

Era de praxe cantarem-se as letras próprias da Feira de São Mateus no dia da procissão, entre as quais:

 1.       “O Senhor da Piedade…” (velador de Elvas, a quem voltei mais uma vez)

Este ano foi muito especial para mim ir à Feira de S. Mateus porque pude levar pela primeira vez o meu filho António Luís (no ano passado ainda era muito novo para ir onde quer que fosse). E quando as mãos que antes seguravam imperiais agarram agora num carrinho de bebé, e quando se vêm vídeos transmitidos em directo pelos amigos que ainda não se deitaram à hora a que nós já estamos acordados novamente, percebe-se que alguma coisa de grande importância mudou a nossa vida. Não para pior, naturalmente, mas para diferente, numa nova etapa onde as prioridades ficaram todas invertidas.

E foi essa imagem romântica do emigrante elvense em Lisboa, com filho que nem sabe de que terra é, levantando a poeira do recinto feiral, que me deu matéria com que sonhar toda a semana. Mas as interferências externas dum mundo em constante activismo político não me permitiu ser pai babado com esse rito iniciático do primogénito indo ao Senhor da Piedade por muito tempo.

2.       “Está no meio dos olivais…” (que por não serem super-intensivos ainda não receberam, felizmente, a visita dos movimentos ambientalistas)

Se todas as atenções se centram agora em Greta Thunberg, voltam-se momentaneamente para os vestidos de Cristina, e retomam à jovem sueca, como poderíamos ficar nós em solitária contemplação daquela criatura tão querida? – o filho, não a Greta ou a Cristina.

Que extremismo ecológico é este, que torna subitamente condenáveis todas as práticas alimentares que deram forças ao homem para construir civilizações? Que religião global é esta, que troca a imagem tida por obsoleta do Deus Pai pela da panteísta Mãe Terra? Que humanidade é esta que considera haver vida numa bactéria em Marte e num óvulo humano fecundado com menos de dez semanas de gestação não? O plástico tornou-se um cancro, a carne uma calamidade, se for de vaca então passa a blasfémia, os animais humanizaram-se e os humanos animalizaram-se, adoptando comportamentos lascivos, decadentes, materialistas e bestais na sua sociabilidade, sexualidade e consumismo. Pois se um animal doméstico é tido por mais humano que muitos humanos, não estará a humanidade a inverter os papéis que foram conferidos pela ordem natural na criação do mundo?

Como sempre ensinou a Santa Igreja, “o homem e a mulher são vocacionados para dominarem a terra como administradores de Deus.” (Catecismo da Igreja Católica, 373). E apesar de tal palavra (“dominarem”) não poder ser proferida publicamente à luz da ditadura do politicamente correcto, esse domínio não quer dizer que o homem e a mulher se devam comportar como donos arbitrários e destruidores de toda a criação. Porque na visão cristã não existe outro dono senão Deus. Ao homem é dado sim o papel de administrador, de guardião, de bom zelador, que tem responsabilidade para com o mundo confiado por Deus.

Todas as coisas devem por isso ser usufruídas de maneira responsável pelos homens, porque o cristianismo tem também uma visão ecológica do mundo, de respeito por todas as criaturas criadas e queridas por Deus, numa ordem natural, harmonia e beleza admiradas desde sempre. O que não deverá suceder é uma visão do homem meramente animalista (como tantas vezes hoje existe), que o coloque ao nível de qualquer outra besta e lhe retire a dignidade singular que possui em relação a todas as outras espécies que lhe foram destinadas para o bem do género humano.

Não sei até quando será permitido dizê-lo, mas como ainda o é vou aproveitar para relembrar que “o homem é o ponto culminante da obra da criação” (CIC, 343) e ainda que exista uma solidariedade entre todas as criaturas pelo facto de terem todas o mesmo Criador, não se pode ignorar a hierarquia expressa pela ordem dos seis dias da criação, indo do menos perfeito para o mais perfeito.

3.       “Está guardando a azeitona…” (esperemos melhor do que as armas de Tancos)

Após isto tudo, quero voltar ao sonho com o filho, mas Azeredo Lopes não me deixa. Não consigo descansar assistindo a tamanha incompetência, soberba, desconsideração, demagogia, tudo o que se diga é pouco.

Disse que não sabia, não viu, não leu, afinal sabia, mas não era tudo, leu e apagou, afinal não leu e apagou sem ler, sabia mais ou menos, tinham-lhe contado, nem sabia o que era um paiol, conhecia o que lhe davam a conhecer, fora isso nada mais, não tinha culpa, desconhecia, era ignorante, burro até, tudo o que lhe queiram chamar menos arguido.

Se já era deprimente o desempenho enquanto ministro, fazendo revista às tropas sem gravata, enquanto ex-ministro ainda é mais deplorável a figura que quer passar de ignorante e inimputável.

4.       “Não a comam os pardais.” (e assim as azeitonas despareçam como a independência do poder judicial)

Como podem magistrados do Ministério Público ser impedidos pelo director do DCIAP de interrogarem por escrito o Presidente da República e o Primeiro Ministro no caso de Tancos, quando tais provas testemunhais eram consideradas pelos procuradores como fundamentais para o apuramento da verdade? Como se podem apagar 48 perguntas e retirar qualquer menção a Marcelo Rebelo de Sousa das questões dos interrogatórios? Pior, como pode o Ministério Público afirmar em comunicado a concordância unânime de todos os magistrados nesta decisão, quanto tal é claramente mentira, já que os procuradores Cláudia Porto, João Valente e Vítor Magalhães dela discordaram?

Em vésperas de eleições, era (e continua a ser) uma situação muito desconfortável para o PS ver tanta gente do governo e da máquina socialista metida neste imbróglio, mas ainda pior imagem passa ao país querer atrasar a discussão deste assunto na Comissão Permanente para Tancos para depois de dia 6 de Outubro, com a concordância dos colegas de esquerda PCP e BE. Abafa-se, esconde-se, varre-se, silencia-se, tudo de maneira atabalhoada e parcial em ambiente da mais familiar camaradagem para não se levantar qualquer lebre que apareça antes das eleições e prejudique os resultados. As instituições democráticas ainda vá, os resultados jamais!

Já não consigo sonhar… Mas o António Luís sim, felizmente. Que sorte tem de dormir profundamente e não querer saber destas coisas para nada.