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Elogio da Mesa

Não sei dizer de cor quantos nos sentávamos na enorme mesa corrida que havia na adega da casa da Rua da Mouraria de Cima, quando toda a família se juntava para as Festas das Flores em Campo Maior.

31 Julho 2019

Não sei dizer de cor quantos nos sentávamos na enorme mesa corrida que havia na adega da casa da Rua da Mouraria de Cima, quando toda a família se juntava para as Festas das Flores em Campo Maior. Mas lembro-me que não seriam menos de trinta (que era cerca de metade dos que estavam em casa). Nessa mesa – da qual existe uma réplica na sala de jantar da Herdade de Castro e que minha bisavó teve que comprar novamente aos revolucionários que durante as ocupações entenderam por bem ficar com ela – nessa mesa, dizia eu, sentávamo-nos em dois enormes bancos de igual tamanho que só se moviam quando todos os ocupantes (estes legítimos) se levantavam para o afastar e deixar entrar mais um comensal.
Nesta mesa ainda havia sociedade patriarcal e uma hierarquia escrupulosamente respeitada, sendo os primeiros a ser servidos os mais velhos, e começando pelas senhoras, e o rapar dos tachos era deixado aos miúdos quando houvesse lugares vagos. Mas acabado o almoço também nos deixavam participar, ou melhor, assistir mudos – de gesso, como dizia o meu avô – aos momentos de expansão, às conversas, anedotas e historietas de quem já viveu muito e tem mais paciência para contar do que para ouvir. E que regalo eram essas tardes de contos sobre episódios da guerra, primos bastardos, uxoricídios, visitas régias e tesouros escondidos que nos deixavam boquiabertos, mas apenas de espanto, já que opinar nos estava vedado.
Essa mesa é o bastião de uma realidade infelizmente já muito pouco vivida: famílias numerosas, convívio entre gerações, o gosto de estar à mesa, a arte de contar histórias e, evidentemente, uma casa grande o suficiente para acolher móveis desta dimensão.
Quando pelos padrões demográficos modernos uma família é considerada numerosa com três filhos, percebe-se bem que os mínimos históricos de natalidade foram atingidos em Portugal. E com tão poucas pessoas a casarem, e cada vez mais tarde, e tendo presente que o relógio biológico é como o dos comboios, que não espera pelos passageiros atrasados, não será de admirar que qualquer dia “numerosa” queira significar uma família com dois filhos.
É natural que também a destruição do próprio conceito de família tenha contribuído para a diminuição dos seus membros futuros e, quanto aos antigos, os nossos avós sofrem calados uma solidão impessoal, ainda que vivamos todos na mesma cidade e pensemos que o telefone é o substituo moderno da visita.
As mesas estão caladas e, mesmo que aí coma uma família, não se ouvirão mais que monossílabos grunhidos a contragosto. Como podem existir histórias que contar, se ninguém já as ouve dos antepassados? Como se poderá partilhar conhecimento, se ninguém já o adquire de forma consolidada com a leitura?
Um aspecto que ficou bastante prejudicado com a proibição de fumar na maioria dos restaurante, concorde-se ou não, foi o tempo das refeições. Mesmo que as pessoas não tenham o rude hábito de se levantarem entre pratos para fumar na rua, ainda assim só ficam à mesa o tempo bastante para escolherem o prato, engolirem-no em duas garfadas, pedirem a conta e pagarem. Tudo o que tradicionalmente vinha depois – os cafés, digestivos, cigarros e mais digestivos – foram proscritos ou relegados para a esplanada ou mesmo para outro estabelecimento. E é de tal forma assim, que a maioria dos restaurante consegue facilmente organizar dois turnos de refeições ao almoço e ao jantar (facto impensável há uns anos atrás).
Dir-me-ão que estas considerações não passam de prosa especulativa, mas eu, partilhando com a maioria das pessoas da necessidade de comer, já pude comprovar que uma conversa tida à mesa, em tom confidencial com um grupo que se senta próximo e que apenas precisa de se inclinar para expressar a sua opinião, quando transferida para um bar, uma sala, um terraço, ou qualquer espaço fora daquela mesa, perde completamente a sua substância. A conversa fica frouxa, perde intimidade, não desenvolve, os silêncios gerais são mais que muitos… Enfim, é barbaramente assassinada no momento em que se afastam as cadeiras.
Daí que deveria existir um manifesto “pró-mesa” que defendesse a necessária preservação civilizacional desta instituição, que não é só epicurista ou mundana. Pois a coisa mais importante que Jesus Cristo nos legou foi a Eucaristia, toda ela vivida à volta de uma mesa, na Última Ceia. E a Sua primeira manifestação pública ocorreu num banquete, nas Bodas de Caná, em que converteu milagrosamente a água em vinho para que não faltasse que beber aos convidados. E entre acusações de ébrio, a que não ligava, Nosso Senhor nunca deixou de se reunir com os Seus amigos às refeições, com os apóstolos, com Marta, Maria e Lázaro e com tantos outros discípulos.
Lamentavelmente hoje as mesas são na sua maioria de quatro lugares e nem esses ficam todos ocupados. Mas mesmo que por necessidade, ou porque o IKEA assim as vende, estas mesas sejam assim tão pequenas, pelo menos que quatro pessoas se sentem sempre nelas. E se as famílias não são (ainda) grandes o suficiente para preencherem todos os lugares, que se convidem para jantar os amigos ou familiares que vivem mais sozinhos e se aproveite para fazer uma refeição esmerada e bem regada.
Haverá algo mais triste que nos levantarmos da mesa com a garrafa de vinho ainda a meio, porque mais ninguém estava presente para a beber connosco?