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Voltem as tabernas!

Resta-nos sabê-lo render, para que tudo isso não se perca com os nossos filhos. Espero que também eles encontrem um mestre “Joca” e uma Adélia, mas para isso é necessário que voltem as tabernas!

09 Julho 2019

Tinha eu 17 ou 18 anos quando, de um assumido absoluto desinteresse pelo fado, me apaixonei por esse
género musical a tal ponto de se tornar a quase única ocupação que tinha nas férias escolares. Tudo
começou quando um amigo comprou uma guitarra portuguesa, desafiou mais dois para acompanharem na
viola e ao que sobrava (eu) deram-lhe a tarefa de menor aptidão mecânica: cantar. O nosso grupo,
pretensiosamente denominado “Fadistas da Raia”, teve a escassa duração formal de um semestre e o ponto
alto da carreira culminou com a primeira e última actuação em palco, num concerto solidário de variedades
no Cineteatro de Elvas.
Volvidos 10 anos dessa maravilhosa e desconcertante experiência, desfeito o grupo e mantidas as amizades,
do que mais tenho saudades é dessas noites mágicas de ensaios vividas na Taberna da Adélia, à volta de
uma mesa quadrada com uma garrafa de vinho tinto sem rótulo que íamos bebericando nas nossas
pequenas tacinhas baças. Foi aí que pela primeira vez experimentei o encanto da noite – mais até que do
próprio fado –, da melancolia e do saudosismo. Essas tertúlias prolongavam-se sempre até altas horas,
muitas das vezes com o dono Nicolau já a dormir a um canto, e eram passadas entre guitarradas e
conversas, entre um gole de vinho e uma passa de cigarro.
O nosso método de aprendizagem nada ortodoxo dividia-se entre o autodidactismo e as lições do mestre
Juvelino (“Joca”), que com a sua guitarra nos ensinava tão generosamente as passagens do Fado Vitória ou
do Zé Negro, consoante o dia e o humor. Depois de horas de insistência, com gritos de impaciência à
mistura, lá saíam as tão aguardadas notas limpas e claras, com os bordões bem marcados. Então aí as
guitarras gemiam, umas vezes com genuíno sentimentalismo, outras vezes no sentido mais literal do termo,
e aquele local, que se tinha vindo a preparar desde o início da noite, acumulando cada vez mais fumo e
menos sobriedade, tornava-se por fim num antro de fado, numa gruta de saudade, numa verdadeira
taberna.
Podia falar desta como de outras tabernas, tascas, cafés ou bares que não assim há tanto tempo o centro
histórico tinha cheias de vida, sempre com gente a cantar. Esses sítios eram especiais e mesmo os muito
deprimentes – porque os havia – eram especiais porque essa sua deprimência transmitia toda a beleza crua
da noite e do berço do fado. E pode ser só da minha geração ou até apenas do meu grupo de amigos o não
saber beber uns copos à noite sem uma viola ao lado. Mas de facto estas vivências foram fundamentais no
meu crescimento e eram um elo importantíssimo de ligação à ruralidade e aos costumes locais. Caso
contrário, como teria aprendido centenas de versos das saias de Campo Maior ou dos cânticos ao Menino
Jesus? Como poderia ter ouvido histórias sobre a família, os avós e os bisavós que nunca conheci por gente
que conviveu de perto com eles? Como saberia tantas curiosidades da cidade, de casas, nomes de ruas,
tragédias e escândalos passados?
Se o problema for geracional, não existe solução (a menos que se promovam cursos intensivos de viola,
guitarra portuguesa e canto em contexto boémio – sem lugar por isso a quaisquer contenções alcoólicas ou
tabágicas), mas se for apenas de oferta, muitas coisas se poderão fazer para o contrariar.
Sem centrarmos esta questão apenas no aspecto turístico, mas que sendo tão relevante não pode ser
ignorado, podemos perguntar-nos se o que atrairá mais um consumidor forasteiro é uma réplica da
restauração que encontra na sua terra ou a oferta de cozinha regional? E mesmo dentro desta, será o
restaurante de cozinha regional por si bastante ou vale a pena apostar-se em todo o ambiente (decoração,
folclore, gente típica, música) para uma oferta genuína e castiça? Sou por esta última solução, mas é
evidente que todo o ambiente não pode ser artificial (o que seria a ideia, que me passou agora pela cabeça,
de contratar figurantes alentejanos com boina e mãos nos bolsos, à laia de algumas velhinhas pagas dos
programas da manhã!).

No caso de Elvas, terra tão típica e rica em tradições, nunca chegaríamos a esse ponto, porque aqui ninguém
finge, a ruralidade é mesmo verdadeira e toda a nossa gente parece exactamente o que é: um encantador
povo alentejano da raia. Nesta simplicidade temos o nosso trunfo e, à semelhança de tanto património
material que recebemos sem qualquer esforço (pelo menos nosso), também o património imaterial, herança
de tantas gerações a viverem no mesmo sítio, nos foi entregue gratuitamente.
Resta-nos sabê-lo render, para que tudo isso não se perca com os nossos filhos. Espero que também eles
encontrem um mestre “Joca” e uma Adélia, mas para isso é necessário que voltem as tabernas!