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Opinião

O que fazer com os turistas?

Dois pontos afixam-se pertinentes: que tipo de turismo é desejável para Elvas e como oferecê-lo?

18 Junho 2019

É sob o olhar infelizmente já mais estrangeiro do que autóctone que hoje em dia vejo Elvas. E ao calcorrear a cidade através desse prisma percebo de uma perspectiva mais utilitarista que, dada a desertificação do mundo rural – pelas parcas condições de vida profissional que oferece –, a economia local só não perderá ainda mais vitalidade se for direccionada maioritariamente para o turismo.

Nada disto é novidade e de facto Elvas tem-se sabido aproveitar da sua excepcional mais-valia histórica e patrimonial. A cidade restaurou-se e é um regalo vê-la bonita, limpa, iluminada, de cara ocre lavada, pronta para receber quem a visite. Naturalmente que existem ainda problemas relevantes a tratar (como sejam o da enorme falta de segurança no centro histórico a que a inércia das autoridades públicas vergonhosamente não dá resposta), mas não falarei deste assunto que tantas linhas no “Linhas” já deu que correr. Antes gostaria de reflectir na oferta hoteleira e se ela própria não encerra em si a sua condenação.

Creio que a primeira conversão recente de edifício histórico em hotel deu-se no Hotel São João de Deus e esse era, até à data, a única oferta relevante intra-muros. Ao que se lhe seguiu o impressionante Convento de São Paulo e agora em breve, com a abertura do novo concurso de concessão, os Quartéis de São João da Corujeira e do Comando Militar da Praça de Elvas. E que bom poder reabilitar e reabitar espaços que nunca deveriam ter deixado de o ser e que foram pensados para albergarem grandes comunidades de moradores. No entanto, não é despiciente perguntarmo-nos se o aumento de alojamento, por si e apenas aliado ao magnífico património elvense, basta para atrair e convidar a regressar turistas?

Dois pontos afixam-se pertinentes: que tipo de turismo é desejável para Elvas e como oferecê-lo?

Será suficiente para a dinamização da economia local e da própria população um turismo de massas? Massas essas que chegam metidas em rotas temáticas low-cost organizadas em torno de quaisquer percursos, sejam históricos, religiosos ou militares ou simplesmente promovidos por empresas de aspiradores sem qualquer critério cultural, pernoitam em regime de meia pensão, fazem uma visita de médico ao Aqueduto, Forte da Graça e Sé, consomem um menu turístico que onomasticamente lhes é tão próximo por € 8,5 com sobremesa incluída, compram um íman e uns atoalhados e seguem peregrinação para outras paragens? Porque esse turismo – antes personificado pelo viajante alemão de classe média baixa com chinelos e meia branca e agora já estendido democraticamente a todos os povos – não é amigo dos locais que visita nem é amigo da população que os habita. Esse turismo kitsch, de fast-food, que consome voraz mas parcamente e deita fora, não dignifica Elvas nem nos eleva enquanto elvenses.

Daí que penso ser muito mais benéfica a aposta numa oferta culturalmente elevada, especializada, de nicho, que, sem prejudicar a outra oferta para massas cuja importância económica não deve ser descartada, possa atrair gente que consuma em todas as frentes existentes: restauração, hotelaria, espetáculos culturais, feiras e artesanato, tauromaquia, cerimónias religiosas, património, eventos desportivos e experiências ligadas à natureza.

Porque um turista que, imaginemos, no mesmo fim-de-semana jante num restaurante típico e aí oiça o fado, no dia seguinte dê um passeio a cavalo pelas muralhas, faça uma visita guiada às fortificações, pela noite veja uma corrida de toiros, e no último dia assista na Sé a uma missa ao som do órgão Oldovino e faça um workshop de fabrico de roncas, tudo isto pernoitando num magnífico hotel do centro histórico com vista para a raia, é um turista que, além de deixar muito dinheiro no comércio local, irá sem dúvida voltar para repetir as fantásticas experiências que viveu.

Por isso é fundamental que a nossa rede de museus seja consistente, que nas igrejas existam pessoas capazes de esclarecer os visitantes e que os postos de turismo estejam coordenados com todas as estruturas de interesse turístico e tenham funcionários e guias fluentes em diversas línguas. Como também já se leu na semana passada numa entrevista dada a este semanário, não é de descartar a ideia de embelezar ainda mais a Praça da República, uniformizar a decoração das diferentes esplanadas e mesmo ampliá-las.

E porque não ocupar e rentabilizar o Mercado das Barcas com tasquinhas, bares, bancas de artesanato, noites temáticas (nesse espaço que outrora já serviu de cinema), uma livraria ambulante que também ofereça literatura local? Ou estaremos condenados em Elvas a comprar livros nos supermercados? Espero que não, isso seria o princípio do fim...