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Ser Morno

O morno nunca foi bom e o não adoptar firmemente verdades e princípios que nos orientem põe em causa a integridade do próprio homem

05 Junho 2019

Morno nunca foi um adjectivo visto com bons olhos. Comparado com os seus colegas laterais quente e frio, o morno assume-se como uma característica de inclinações variáveis a quem tanto se lhe dá pender mais para um lado ou para outro, conforme convenha.
Poderia dizer-se que o morno, estando no meio, é como a virtude, que está no centro. Mas enquanto o centro é o local mais equilibrado das paixões e do pensamento, o meio, pelo contrário, é o ponto tépido e indeciso que se situa entre a partida e a chegada. Daí que estar no meio seja completamente diferente de estar no centro, que é para onde todos os interesses convergem. Quem está no centro é por isso uma pessoa normalmente equilibrada e sensata e quem está no meio é uma pessoa morna e indecisa.
Ora, o morno nunca foi bom (a água morna é um fraco substituto da água fervida, não mata os micróbios e nem chá serve para fazer, e a comida morna é uma deprimência quando comparada com uma refeição verdadeiramente quente) e o não adoptar firmemente verdades e princípios que nos orientem põe em causa a integridade do próprio homem, que em vez disso cede o pensamento aos caprichos da vontade dominante ou mais apetecível.
A “mornice” é uma modernice que os nossos pais pouco praticaram e, essencialmente, um flagelo da minha geração. Por exemplo, uma pessoa que não se casa mas se junta está a declarar à sua companheira, mesmo insconscientemente, que ainda que nutra afectos especiais por ela e um forte desejo de coabitar maritalmente não é capaz de se comprometer solene e perenemente com ela (porque isto da vida dá muitas voltas e nunca se sabe o dia de amanhã, em que me poderei desapaixonar desta pessoa ou em que ela me poderá desiludir profundamente).
Se em tantas circunstâncias da nossa vida nos são exigidos compromissos solenes e assunção de responsabilidades (ninguém imagina ir viver à experiência, de borla e descomprometidamente para uma casa e só passado um período de grande fruição celebrar então a respectiva escritura de compra e venda com o proprietário), porque nas relações humanas já assim não o é?
Porque antes do sacrifício, da entrega e da abnegação do amor-próprio estão o ego, que nos impede de receber o outro na sua totalidade. Deixou o discurso de ser “vou contigo para onde quer que vás” para se transformar em “vou contigo só até este ponto”.
Mas o que seria do mundo se fosse só habitado por mornos? Nesse mundo ninguém votaria, já que isso implica um compromisso de delegação de poderes num representante político (dada a recente taxa de abstenção nacional, é num Portugal muito morno que vivemos sem dúvida). Também ninguém declararia guerra ou manteria paz, avançaria com teorias científicas ou filosóficas ou defenderia as suas convicções. Em suma, não existiria a verdade porque a verdade manifesta-se, mantém-se e propaga-se sempre pela adopção de uma posição firme.
Lembro com saudade duas minhas tias-bisavós campomaiorenses que eram a personificação da indecisão. A mais velha esteve comprometida durante tanto tempo que o seu pretendente desistiu do noivado. Já a mais nova, como não se atrevia a casar antes que a irmã mais velha desse esse passo, afugentava todas as propostas continuamente recebidas. Conclusão: morreram as duas solteiras depois de uma vida de indecisões, num subir e descer escadas para mudar de roupa por falta de segurança na primeira (ou segunda e até terceira) escolha, tudo isto enquanto o carro que as esperava à porta de casa obstruía durante horas o trânsito na Rua da Mouraria de Cima.
Não esqueçamos o que nos revelou o apóstolo São João: “Conheço as tuas obras: não és frio nem quente; antes fosses frio ou quente. Mas porque és morno, isto é, nem frio nem quente, estou quase a vomitar-te da minha boca” (Ap. 3, 15).

Advogado