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360 anos da Batalha das Linhas de Elvas

Há 360 anos, naquela manhã de cerrado nevoeiro, as forças ocupadoras espanholas foram afastadas pela ofensiva portuguesa comandada pelo experiente Conde de Cantanhede que, determinado em recuperar a cidade raiana de Elvas, obrigou as tropas de D. Luis de Haro a desertar em direção a Badajoz.

14 Janeiro 2019

Há 360 anos, naquela manhã de cerrado nevoeiro, as forças ocupadoras espanholas foram afastadas pela ofensiva portuguesa comandada pelo experiente Conde de Cantanhede que, determinado em recuperar a cidade raiana de Elvas, obrigou as tropas de D. Luis de Haro a desertar em direção a Badajoz. Apesar da neblina, não se tratou de um regresso do Encoberto, tão esperado pelos populares portugueses num momento tão difícil na história do país, nem foi o culminar prático da revolta de 1640; mas a Batalha das Linhas de Elvas foi, ainda assim, muito mais do que uma simples redempção do estado de espírito português após o fracasso do cerco a Badajoz. Vitória conseguida frente a um contingente militar numericamente superior, a batalha que ditou a libertação de Elvas tratou-se de uma das mais relevantes cenas de todo o processo de recuperação da soberania portuguesa aclamada em 1640.

A libertação da cidade de Elvas do jugo castelhano – a maior praça do Alentejo e ponto estratégico nevrálgico para o sucesso da ambicionada campanha militar castelhana sobre o Alentejo – deitou por água baixo o plano espanhol que levaria as suas forças militares num passeio até Lisboa para colocar um fim à irritante histeria indígena em torno da independência. Sem Elvas, tornar-se-ia bem mais complicado e desgastante para Madrid subjugar pela força o irreverente povo português, a quem tanto custaram os anos de ocupação castelhana. 

Ao longo do período de ocupação, os inimigos de Espanha tornaram-se os nossos inimigos – e Espanha estava rodeada de inimigos. Sofremos na pele os efeitos da bendita “monarquia dual”, fosse nos territórios portugueses além-mar, cuja defesa Madrid constantemente negligenciava, fosse no autêntico saque de recursos que se ia extraindo aos portugueses para financiar o extenso esforço militar espanhol. Para mais, o espanholíssimo conde-duque de Olivares esforçava-se para castelhanizar, pela força, toda a península – imposição que levou à revolta portuguesa.

Esta castelhanização que Portugal foi sofrendo não era mais do que a tradução prática do que sempre foi a grande frustração espanhola: a dialética peninsular e a decorrente independência portuguesa. Mas, verdade seja dita, o iberismo não partiu só dos castelhanos; este também atingiu as elites portuguesas, que na crise que levou a 1580 aceitaram, ingenuamente ou por puro oportunismo, a união das duas coroas peninsulares – acreditando que os interesses de Portugal e dos seus territórios ultramarinos seriam protegidos por Espanha, e que Portugal nunca seria secundarizado pelas elites espanholas, nem muito menos restringido na sua acção… Uma verdadeira crise de consciência nacional capturou as elites portuguesas, que venderam o país a interesses alheios, e ainda assistiram à repressão espanhola das contestações populares portuguesas à nova situação política.

Camões compreendeu, no génio que fez dele expressão realizada do patriotismo português, a crise nacional vivida no momento que levou à perda da independência nacional quando disse que “O favor com que mais se acende o engenho / Não no dá a pátria, não, que está metida / No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza”. Muitos foram aqueles que, guiados pelo seu interesse próprio, diz o poeta nacional, “se desviam / Do lustre e do valor dos seus passados / Em gostos e vaidades atolados”. A traição das elites, aliada ao desânimo generalizado no nosso país em relação a todas as questões fundamentais, deixou-nos numa das maiores crises nacionais.

 Mas, sob a amargura do viver acorrentado à imposição do interesse alheio, o espírito português, profundo, perdurou e mostrou-se no significado da saudade da independência, no simbolismo do Encoberto, que mais não era do que o reflexo do sentimento coletivo e de uma necessidade espiritual do país. São estes o amparo, a referência a que nos agarramos nos tempos da mais sofredora crise. E foram estes símbolos que revigoraram a consciência portuguesa e acordaram as elites para a imperiosa tarefa de libertar Portugal da dominação espanhola.

Estes 360 anos da Batalha das Linhas de Elvas são uma oportunidade para voltar a evocar a vitória lusitana na Guerra da Restauração, os seus heróis e a recuperação da liberdade portuguesa. O “grito de Almacave” que se fez ouvir em 1640 ditou o regresso de uma consciência nacional após décadas de imposição de interesses alheios e, com muito sangue derramado, restabeleceu a soberania portuguesa e a dualidade peninsular, materializadas na assinatura do Tratado de Lisboa. Não podemos permitir o seu esquecimento: Portugal vive pela vontade e carácter de todos os homens extraordinários que, em momentos de crise como este, levantaram a consciência nacional e colocaram, acima de si próprios, os interesses do país. Nunca é demais fazer-lhes justiça e ostentar o orgulho em ser português.