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Podem tirar o cavalinho da chuva

O PAN quer retirar a carga negativa que algumas expressões populares portuguesas depositam sobre os animais.

02 Janeiro 2019

Aparentemente, o Partido dos Animais e da Natureza (PAN) quer mudar algumas expressões populares de forma a retirar-lhes a carga negativa que depositam sobre os animais.  “Agarrar o touro pelos cornos” ou “matar dois coelhos de uma cajadada só” deveria ser substituído, segundo estes intelectuais, por expressões mais "amigas dos animais".

Antes de nos precipitarmos com julgamentos que insultem a inteligência dos deputados do PAN, é importante salientar duas coisas. Esta ideia peregrina não partiu do Partido dos Animais e da Natureza, que apenas aceitou uma proposta da PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), uma organização não-governamental que se dedica à luta pelos direitos dos animais. O segundo reparo é que o deputado do PAN, André Silva, não quer a ilegalização das ditas expressões “maléficas” e apesar de acreditar que o ideal seria a substituição das tais expressões, não serão avançadas propostas legislativas nesse sentido já que iria “condicionar a liberdade de expressão ou a criatividade”, e também talvez porque seria complicado identificar e punir quem não cumprisse tal lei!

Todos reconhecemos que as palavras acarretam significados, mas colocar um possível efeito que o uso de expressões populares poderão ter na forma como tratamos os animais acima da liberdade de expressão soa muito a antidemocracia e a autoritarismos ditatoriais.

Profissionalmente falando, a ideia de uma hierarquia da Vida, no qual os organismos mais evoluídos estão acima dos menos evoluídos é errada. Nós, biólogos, consideramos que todos organismos são igualmente evoluídos, pois todos são capazes de sobreviver nos seus habitats e de se reproduzirem (os que não são, extinguiram-se). Podemos no entanto classifica-los pelo seu nível de complexidade. Exemplificando, é errado considerar-mos que o ser humano é mais evoluído que a bactéria (se fossemos mais evoluídos elas não nos deixavam doentes) mas somos mais complexos (somos constituídos por milhões de células que têm de se coordenar enquanto que as bactérias são unicelulares). Mas enfim, toda esta conversa para quê? Bem, se todos os organismos são igualmente evoluídos e é errado hierarquizá-los, então substituir a expressão “agarrar o touro pelos cornos” pela expressão “agarrar a rosa pelos espinhos” não será inferiorizar e atribuir uma carga negativa às plantas? 

A proposta da PETA, apadrinhada a nível nacional pelo PAN não faz sentido. Quer pelas razões biológicas que aqui expliquei, quer pelo atentado à liberdade de expressão e cultural que representam.

A título de salvaguarda, eu não sou contra leis que evitem ou punam os maus tratos em animais sou contra a radicalização e ridicularização destas leis que por um lado levam a opiniões mais extremas que não beneficiam os animais nem as pessoas e por outro levam a que mais pessoas considere os direitos dos animais como algo inútil e ridículo.

 .

Biólogo e mestrando em biologia evolutiva e do desenvolvimento na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Exemplos de expressões populares com animais

"Pensar na morte da bezerra"

"Não fazer um boi"

"Mais vale alimentar burro a pão de ló"

"Cor de burro quando foge"
"Cão que ladra não morde"

"Estar um frio de cão"

"Darem-se como cão e gato"
"Não valer um caracol"
"Ser um carapau de corrida"
"Ter dentes de cavalo"

"De cavalo para burro"
"Dizer cobras e lagartos"
"Deitar-se com as galinhas"
"Pegar um touro pelos cornos"
"Comer gato por lebre"
"Dizer cobras e lagartos"
"Ter macacos no sótão"
"Estar com a mosca"
"Cair que nem um pato"
"Dar pérolas a porcos"
"Estar em pulgas"
"Engolir um sapo"
"Estar como sardinha em lata"
"Fazer figura de urso"