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Doutor, faça-me um filho por favor!

A edição do genoma deixou de ser ficção científica e começou a dar os primeiros passos no mundo da realidade no início de 2012

16 Novembro 2018

A frase é curiosa e, bem sei, enganadora. A verdade é que neste artigo pretendo abordar um tema que já foi relatado várias vezes em filmes, séries e livros mas que desde o início de 2012 deixou de ser ficção científica e deu os primeiros passos no mundo da realidade, falo da edição do genoma humano.

A edição do genoma (conjunto de genes de um organismo) é a capacidade de alterar, remover ou acrescentar um pedaço de material genético. Existem uma série de técnicas capazes de realizar esta delicada tarefa, a mais conhecida e valiosa é a CRISPR/Cas9. Esta tecnologia, usando uma analogia, funciona como a funcionalidade Localização e Substituição do Microsoft Word. Ela localiza um pedaço pequeno de ADN presente no genoma e é capaz de removê-lo ou substitui-lo. Para o leitor ter uma ideia de como esta tecnologia veio facilitar a vida aos Biólogos Moleculares, entre outros, é como se ao entrar numa biblioteca com milhares de livros em busca de uma frase específica, pudesse rapidamente localizar essa frase no livro pertencente em vez de ter de ler todos os livros em busca da maldita frase.

Então mas qual o impacto desta tecnologia nas nossas vidas? 

“Simples”, se pudermos localizar e substituir um pedaço de ADN significa que podemos, por exemplo eliminar um gene que seja responsável por uma doença, podemos corrigir algumas “falhas” existentes no embrião que se manifestarão após o nascimento, escolher o sexo da criança e, podemos até, em última análise, controlar a cor dos olhos. Obviamente que tudo isto é muito mais complexo, mas do ponto de vista teórico não deixa de ser uma hipótese viável. 

Esta tecnologia pode-nos dar a capacidade de controlar cada detalhe dos nossos filhos, deixaremos de fazer bebés poderemos passar a “encomendá-los”! 

Por um lado poderemos livrar a humanidade de algumas doenças genéticas e ainda diminuir a frequência de outras, contudo uma série de perguntas ser-nos-ão colocadas: Que doenças eliminamos? Onde estabeleceremos a linha entre o que pode ser editado e o que não pode? Estas decisões recaem sobre o governo, a empresa de edição genómica ou os pais?

Se deixarmos o comum do cidadão decidir como será o seu filho, poderemos estar a dar aso a situações extremas e levanta-se a polémica de até que ponto os pais podem decidir o futuro dos filhos, porque o leitor até pode achar que o seu filho fica bem com o cabelo laranja e orelhas pontiagudas mas ele é que vai ter de viver com a sua decisão. 

A ideia de um governo com o poder de decidir como serão os seus cidadãos, honestamente, não me agrada muito. Relembra-me os movimentos eugenistas que quase chegaram à Inglaterra no séc. XX. Além disso, seria ridículo deixarmos estas decisões ao sabor das campanhas eleitorais! Para mais, seriam sempre necessárias pessoas com diferentes competências para desempenhar diferentes trabalhos, estaríamos a “desenhar” crianças já a pensar no futuro que estas ocupariam na sociedade, os mais fortes para trabalhos fisicamente mais exigentes e os mais dotados intelectualmente para trabalhos que exigem mais capacidades cognitivas, não lhes dando liberdade de escolha sobre o seu futuro. Algo semelhante a uma colónia de formigas onde a morfologia dos animais está relacionada com a função que irão ocupar na colónia.

A ideia de uma empresa de edição genómica não parece mal, até pensarmos que uma empresa serve para fazer lucro e como tal estou a imaginar os preços elevados para livrarmos os nossos filhos de doenças. Descontos,promoções e venda de um “pacote” especial de edições genéticas que deixa o seu filho(a) igual à sua personalidade famosa preferida. Um mundo cheio de Madonnas e Tony Carreiras seria algo estranho! Para além das desigualdades sociais que iria causar. Famílias mais abastadas poderiam pagar melhores edições genéticas e teriam filhos saudáveis e melhor “equipados” para enfrentar o mundo enquanto famílias mais modestas teriam de se “contentar” em ter filhos à moda antiga.

Obviamente que tudo isto é, em grande parte, pura especulação da minha parte, contudo o primeiro passo está dado, hoje é possível editarmos o genoma, humano ou de outra espécie, o que se seguirá é ainda uma incógnita mas pelo menos já temos um válido ponto de partida.

Biólogo e mestrando em biologia evolutiva e do desenvolvimento na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa