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Psicólogos de Golfinhos e terapeutas de Tainhas

Várias pessoas já vieram alertar para os perigos que as dragagens trarão quer para o ambiente quer para o sector turístico de Setúbal

16 Outubro 2018

Fiquei francamente preocupado com as palavras da Ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, a propósito das obras no estuário do Sado. A senhora ministra quis descansar a comunicação social e acalmar os freaks do ambiente, afirmando que fora contratado um psicólogo de golfinhos (leu bem caro leitor) para avaliar o impacto que as dragagens trariam nestes emblemáticos e tão ameaçados animais. Infelizmente o efeito foi o oposto e acredito que muitos tenham perdido o sono à conta destas palavras.

Eu não exijo que a ministra saiba exatamente que tipo de impactos vão ter as dragagens no ecossistema do estuário e na população residente de golfinhos, nem que saiba o que um etólogo (alguém que estuda o comportamento) especialista em golfinhos faz concretamente, mas a ideia de haver uma profissão chamada psicólogo de golfinhos é demasiado absurda! Será que a ministra acha mesmo que existe num qualquer curso de biologia marinha a especialização em psicologia de cetáceos (grupo de mamíferos marinhos ao qual pertencem os golfinhos, as baleias e as orcas), ou acha que no ISPA, ou talvez numa outra faculdade de psicologia, exista um mestrado para quem quer aplicar as teorias de Freud à fauna marinha? Não me levem a mal mas a ideia que a senhora ministra transmite, mesmo que tenha sido a brincar, é a de que não faz ideia do que está a falar.

Várias pessoas já vieram alertar para os perigos que as dragagens trarão quer para o ambiente quer para o sector turístico de Setúbal, contudo é preciso perceber a finalidade das dragagens. As dragagens não são mais do que retirar areia e outros sedimentos do fundo do estuário, 6,5 milhões de metros cúbicos neste caso em especifico, com o objetivo de o aprofundar. Desta forma um maior número de barcos de grande tamanho poderão atracar no porto de Setúbal. A ideia é simples ao modificar-se o estuário valoriza-se o porto e traz-se mais emprego à região.

O biólogo responsável pela equipa de monitorização dos golfinhos durante as dragagens disse, em entrevista à TSF, que apesar de o ideal ser não se fazer nenhuma dragagem acredita que a população de golfinhos não desaparecerá do estuário e que ele e a sua equipa têm poder para suspender as operações se considerarem que existe um elevado perigo para os animais. No entanto é de salientar que a zona do estuário do Sado, tal como a costa próxima de Setúbal, estava referenciada para ser incorporada na Rede Natura 2000 (conjunto de áreas que apresentam grandes restrições às atividades humanas pois são consideradas zonas de elevado interesse biológico) e que esses dois projetos foram rejeitados. É pertinente por isso pensar que, se fossem aceites, nunca as dragagens ocorreriam.

No final de contas, e protestos à parte, o projeto passou no Estudo de Impacto Ambiental, e tudo indica que vai avançar sobre o olhar atento de quem estuda golfinhos há muitos anos, ficando no entanto indeterminado o futuro dos animais no estuário e se vai abrir um curso de psicologia de golfinhos ou talvez de terapeuta de tainhas!

Biólogo e mestrando em biologia evolutiva e do desenvolvimento na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa