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O medo do desconhecido

Há algum tempo atrás tive uma conversa muito interessante com um colega de profissão que me dizia que achava inacreditável a falta de conhecimento (ele usou palavras mais duras) que algumas pessoas demonstravam em relação à Biologia.

13 Setembro 2018

Há algum tempo atrás tive uma conversa muito interessante com um colega de profissão que me dizia que achava inacreditável a falta de conhecimento (ele usou palavras mais duras) que algumas pessoas demonstravam em relação à Biologia.

Após a conversa, concluí que: 1) Existe de facto uma enorme falta de conhecimento do público em geral em relação à Biologia como um todo; 2) Essa falta de conhecimento é em grande parte culpa… adivinhem de quem… dos Biólogos!

O conhecimento que adquiri nos meus três anos de licenciatura e um (por enquanto) de mestrado não devem ficar fechados na minha cabeça para uso exclusivo da minha pessoa. Devem ser partilhados e explicados de uma forma simplista mas não enganadora, que o comum dos cidadãos possa compreender. Se não for eu a explicar aos que estão mais próximos de mim assuntos de biologia, que direito tenho eu de os criticar por não os saberem?

Por exemplo, é bastante comum nas aldeias e zonas mais rurais do país existir um medo coletivo em relação aos répteis (cobras, lagartos e osgas) e artrópodes (aranhas, escorpiões e insetos). A verdade é que este medo é alimentado pelo enorme desconhecimento que as pessoas têm sobre estes grupos. Analisando um pouco melhor alguns dos mitos:

      Todas as cobras são venenosas e perigosas.

Errado, das 10 cobras existentes em Portugal, apenas duas são venenosas (a víbora de seoane e a víbora cornuda) e mesmos estas, apesar de exigirem tratamento médico, não serão mortais para adultos saudáveis. Além disso as cobras são animais que se cansam rapidamente e preferem esconder-se a enfrentar um animal do nosso tamanho!

      “Se a víbora ouvisse e o licranço visse, não havia ninguém que lhes resistisse”!

O ditado popular fica no ouvido mas é falso! As cobras são capazes de captar o som apesar de não terem orelhas. Os licranços para além de não serem cegos não têm qualquer tipo de veneno ou substância tóxica.

      Os lagartos têm peçonha.

Em primeiro lugar, o que é peçonha? Em segundo, as duas víboras que referi acima são os únicos répteis de Portugal a terem veneno ou qualquer outra substância que pode  em risco a nossa saúde. Sardões, lagartixas e osgas não representam qualquer tipo de perigo. Contudo algumas salamandras (que são anfíbios e não repteis) têm uma espécie de gel que lhes cobre a pele, que serve como defesa e para se manterem hidratadas. Essa substância pode ser irritante para a pele, no caso de pessoas mais alérgicas, contudo está longe de ser mortal.

      Não existem aranhas venenosas em Portugal

Na verdade, todas as aranhas têm veneno. Contudo em Portugal, que se saiba, não existem aranhas com venenos suficientemente tóxicos para matar um humano adulto. Contudo no caso de ser mordido deve tentar capturar o animal e levá-lo consigo para o hospital, devido ao grande desconhecimento em relação a este grupo de animais.

      Se pusermos um lacrau (ou escorpião) num círculo de fogo ele suicida-se.

Lembro-me de ser pequeno e ouvir este conto fantástico. É de longe o mais incorreto de todos. O lacrau não vai suicidar-se mesmo numa situação destas. Isso seria ir contra o seu instinto de sobrevivência. O suicídio é algo psicologicamente muito complexo e animais com um sistema nervoso radicalmente diferente e menos desenvolvido na cognição que o nosso não deverão ser capazes de tal comportamento.

Existem muitos outros mitos e lendas, como as cobras hipnotizarem as presas, e muitas outras más interpretações e confusões. Grande parte delas subsiste devido ao desconhecimento involuntário das populações. Este artigo não tem como objetivo principal desfazer esses mitos e lendas mas sim mostrar às pessoas que muitos problemas da vida selvagem se resolvem com um pouco mais de conhecimento e que os biólogos, e cientistas no geral, têm um papel importantíssimo na sociedade em desfazer estes Mitos, contribuindo para uma sociedade mais culta. Basta, para isso, ensinarem e partilharem um pouco do que aprenderam. Contudo é necessário que os seus ouvintes estejam recetivos e tenham a humildade de reconhecerem o seu desconhecimento.

Biólogo e mestrando em biologia evolutiva e do desenvolvimento na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa