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Insatisfeita com os critérios de atribuição de prémios

Atleta acusa organização da Meia Maratona Badajoz- Elvas de machismo e discriminação

Não é uma intifada, não é ressentimento, nem é pessoal. É uma questão de justiça e uma chamada de atenção para uma situação obsoleta e que contraria a tendência de diluir diferenças entre homens e mulheres.

30 Outubro 2019

Não é uma intifada, não é ressentimento, nem é pessoal. É uma questão de justiça e uma chamada de atenção para uma situação obsoleta e que contraria a tendência de diluir diferenças entre homens e mulheres. Em Portugal o exemplo mais recente foi dado pelo poder executivo. O XXII Governo Constitucional, chefiado por António Costa reservou 8 ministérios para mulheres. O exemplo deveria ser seguido, e não contrariado.  

Ainda que o regulamento o preveja, existiu uma desigualdade na atribuição dos prémios da 31ª Meia Maratona Badajoz - Elvas que se realizou no passado dia 13 de Outubro.  As mulheres ficaram em desvantagem. Uma das atletas participantes fez a denúncia e manifestou o seu desagrado aos promotores. O Clube Elvense de Natação (CEN) enquanto entidade organizadora já se pronunciou. Para o ano será diferente? Teremos que esperar para ver.

 

Tânia Queirós Santana faz questão de frisar que não se considera atleta. Explica que se iniciou na corrida em estrada há cerca de dois anos, por gostar e por se sentir bem. Natural de Lisboa, residiu durante algum tempo em Elvas. Há 4 anos transferiu-se com a família para Badajoz. Incentivada pela existência de uma infraestrutura desportiva, localizada perto de casa, junto ao passeio fluvial, começou a treinar e a “evoluir aos poucos, à medida que o meu corpo me ia deixando progredir. Nunca tinha pensado entrar em nenhuma prova”, refere. Acabaria por mudar o paradigma e resolveu começar a participar em algumas competições. No passado dia 13, envergando o dorsal 38, Tânia partiu da Avenida de Huelva, em Badajoz,  e cruzou a meta, na pista de Atletismo de Elvas ao fim de 2 horas, 14 minutos e 31 segundos, após correr os 21,098 km do percurso. Ao chegar na 124ª posição da geral, e em segundo lugar na categoria Veteranos I Femininos, viu-se a receber um troféu, ao mesmo tempo que se deparava com uma situação de imparidade na atribuição dos prémios monetários. O atleta masculino que tinha chegado na segunda posição, na mesma categoria, levava para casa um prémio no valor de 50 euros, enquanto ela não teria direito a receber igual montante. Apesar  de ter lido o regulamento, Tânia Queiroz Santana, explica que se focou nas partes que mais  lhe  interessavam como “a data, os horários, onde tem que se ir buscar o dorsal, o preço, se há categorias infantis, porque gosto de levar os meus filhos a correr” e refere  que não se fixou nos prémios, por duas razões. “Em primeiro lugar, porque sou uma aficionada. Ou seja, não tenho nível nem pretensões de ganhar algo, de fazer pódio. Aconteceu duas vezes, foi esta e uma outra, porque havia poucas participantes. E o outro motivo é porque dou por certo que este tipo de diferenças já não existem”.

A indignação e o pedido de correcção de uma conduta discriminatória

Ainda que surpreendida e indignada, Tânia não se manifestou de imediato junto da organização. “Eu estava completamente estourada depois de duas horas a correr. Naquele momento pensei que não ganharia nada com isso. A pessoa que estava no escritório do Clube Elvense de Natação e que estava a fazer a entrega dos prémios, não teria poder de decisão, pelo que achei que não valia a pena e fui-me embora”. Apoiada pela colega que obteve o primeiro lugar na mesma categoria, a espanhola Lorena Ventura Costa, Tânia resolveu amadurecer e adiar a reacção. “Preferi pensar bem no assunto, falar com outras pessoas que já tivessem participado, e à medida que me fui informando, a minha indignação foi crescendo. Dei-me conta de que já é pelo menos o terceiro ano que esta situação se verifica, porque me disseram que em 2017 e 2018 também aconteceu a mesma coisa”. Refere que tanto ela como a colega viriam a associar a fraca participação de atletas na prova a esta diferença de tratamento entre homens e mulheres. De um máximo de 500 participantes previstos no regulamento, terão corrido a 31ª Meia Maratona Internacional Badajoz-Elvas, apenas 127 atletas, de acordo com a tabela de Classificação Geral, enviada aos  participantes após a corrida.  “Ficámos as duas surpreendidas pela fraca participação e realmente não percebíamos. Pensávamos que era pela data, porque  era uma corrida organizada por Elvas e não por Badajoz, e quando é o inverso, a Meia Maratona Elvas - Badajoz, organizada por Espanha  vai muita gente. Também considerámos a dificuldade da prova, porque saindo de Badajoz para Elvas é quase sempre a subir, é mais íngreme, e há naturalmente pessoas muito bem preparadas (não é o meu caso) e dispostas a fazer esse sacrifício. Mas não o farão sabendo que não vão ganhar nenhum prémio”.  Tânia Queiroz Santana suporta esta convicção, no feedback dado por outros atletas participantes na corrida. “É uma opinião que não é só pessoal. Falando com outros atletas, eles estão de acordo comigo. Não é só a presença feminina que é escassa,  ou praticamente inexistente,  a participação masculina também é baixa. Há quem aponte outras falhas em anos anteriores, para lá da atribuição dos prémios. Disseram que a organização era melhorável, que houve escassez na distribuição de água. Este ano isso não aconteceu. Foi a primeira vez que participei e devo dizer que não houve nenhuma falha nesse aspecto, pelo contrário, havia mais postos de abastecimento do que estou habituada a ver em meias maratonas. O único reparo que faço diz respeito aos prémios”.

Após ponderar, a atleta, enviou um email ao CEN, e à Câmara Municipal de Elvas (na qualidade de co organizadora) manifestando o seu “profundo desagrado e espanto” e solicitando a intervenção do Presidente, pedindo-lhe  que intercedesse repudiando uma  “situação claramente machista, discriminatória e inadmissível na actualidade que vulnera a igualdade de oportunidades e direitos entre homens e mulheres”. Também usou as redes sociais, Facebook e Twitter, para divulgar e para “provocar algum impacto”.

A diferença de trato prevista no regulamento  e a posição oficial do CEN e da CME

Elaborado pelo Clube Elvense de Natação, na qualidade de organizador da  Meia Maratona e aprovado pela Associação de Atletismo do Distrito de Portalegre, o regulamento é claramente diferenciador na atribuição dos prémios nas categorias de veteranos. Totalmente equitativo nos escalões  Séniores Geral, onde para a mesma classificação são atribuídos os mesmos montantes a homens e mulheres, estabelece uma desigualdade de tratamento nos restantes escalões.   O documento contém uma tabela que define, em termos de participação, a existência dos escalões Masculinos Veteranos  I a V  e Femininos I a IV. Quando toca à atribuição dos prémios,  sintetiza todos os escalões femininos numa única tabela que apelida de “Geral Veteranos Femininos”, onde estabelece a atribuição de apenas 3 prémios: 1º, 2º e 3º. Fazendo a simetria com os escalões masculinos (I a V), existem 5 tabelas, que determinam a atribuição de 3 prémios por cada um deles. Ou seja, as mulheres recebem 3 prémios referentes a 4 escalões, e os homens 15 prémios correspondentes a 5 escalões.

Em esclarecimentos ao Linhas de Elvas (LE), o Presidente do CEN começou por desvalorizar a situação, apoiando-se no regulamento que considera ter sido aprovado pela atleta, que  participou na prova sem ter manifestado qualquer desagrado previamente. “Essa é uma não notícia. É irmos todos atrás da conversa de uma senhora. O regulamento da prova foi aprovado pela Associação de Atletismo do Distrito de Portalegre. Foi divulgado e as pessoas que se inscreveram fizeram-no conhecendo o regulamento. Ela própria disse que se inscreveu e que não deu importância à parte monetária. Aceitou-o, inscreveu-se e participou, e só depois é que notou que havia um lapso? Porque é que não disse isso antes?” Luis Lopes da Silva, reforça: “O que pode estar em causa é: se o regulamento foi aprovado, correram de acordo com esse regulamento, e se correram aceitaram. Não contestaram. Porque se o tivessem feito, não vinham correr. Ela aceitou o regulamento tal como está, não foi outro.” Questionado se a insatisfação agora manifestada vai motivar uma futura alteração das normas e se haverá uma total  equiparação entre os escalões femininos e masculinos, o Presidente do CEN, deixa todos os cenários em aberto. “De futuro haverá ou não alguma rectificação. Agora, no tempo em que se está seria defraudar todos os outros participantes, alterando o regulamento. O clube não tem capacidade nenhuma de alterar, podendo vir a criar outro tipo de problemas. Neste momento não pode tomar uma posição que dê origem a situações de fragilidade seja para quem for. Nas próximas edições que se irão realizar terá oportunidade de corrigir qualquer eventual diferença que haja. Os regulamentos por norma nunca são iguais de ano para ano.” À atleta, o Clube endereçou formalmente idêntica resposta. “Como diz ter lido o referido regulamento, ter feito a sua inscrição na prova e participado na mesma, temos que concluir que aceitou na integra o mesmo. Assim, confirma que este Clube cumpriu integralmente o que estava regulado para esta prova. Para as próximas edições, se for este Clube o organizador desta Meia-Maratona, por certo que teremos oportunidade de poder alterar o regulamento então atribuído à prova.”

Em representação da Câmara Municipal de Elvas o Vereador Tiago Afonso informou o LE de que a Câmara apenas apoiou a organização da prova, remetendo os esclarecimentos para o CEN, e mostrando-se convicto de que a situação seja cabalmente esclarecida e solucionada.

 

Mudar para repor a justiça e premiar o mérito

 

Na expectativa de que a sua intervenção produza efeitos, e que de futuro haja uma total igualdade na atribuição dos prémios Tânia Queiroz Santana reforça que o que a motivou a levantar a voz, não foi nenhum motivo pessoal e vinca que se houvesse prémios equiparados para homens e para mulheres,  nunca teria ganho qualquer troféu, porque “teria  150 ou 200 mulheres à minha frente,  melhores que eu, porque eu não corro”. Refere que se insurgiu contra uma  situação  injusta para a maior parte das atletas que se esforçam muito mais do que ela  “e que correm há muitos mais anos e também para as pessoas que estão a ver, como a minha filha, que é uma criança de 8 anos, e que eu incentivo a correr simplesmente para se esforçar e demonstrar a ela própria que é capaz de fazer uma coisa que realmente vale a pena fazer, porque é difícil. Começar a correr, não é chegar e ganhar um prémio à primeira. Custa muito, tem que se treinar muito, trabalhar muitas horas, ter uma alimentação adequada. Há lesões. Todos os atletas já se lesionaram pelo menos uma vez ou duas. Correr é algo que custa esforço. Se houver estas desigualdades, pergunto-me e perguntar-se-á ela: de que é que vale a pena eu esforçar-me se os meus colegas de turma, possivelmente quando chegarem à idade da minha mãe vão receber um prémio e eu não,  simplesmente porque eles são rapazes e eu sou rapariga?” Insiste no óbvio: na mudança e no estabelecimento de critérios de igualdade. “Oxalá que para o ano as coisas mudem e que eu possa inscrever-me nesta corrida e que haja 500 mulheres. Eu não vou ganhar nada. No pessoal até fico a perder. Mas será justo”.

Maria Arlete Calais